31/07/2020 às 07h54min - Atualizada em 31/07/2020 às 07h54min

Ser autêntico e inautêntico

Para alcançar a autenticidade do ser é fundamental romper as amarras das convenções

- Everaldo Barreto Moura
Usina da Mente
Dasein é o termo principal na filosofia existencialista de Martin Heidegger. Na sua obra Ser e tempo, Heidegger se põe a questão filosófica do ser. Ilustração Web
Quando a ditadura militar no Brasil já se esvairia, no início dos anos de 1980, João Batista de Andrade produz um filme chamado

“O homem que virou suco”. Sua inspiração vinha sendo amadurecida desde meados dessa ditadura, pelos idos de 1973 com a versão em cordel.

Diante do despertar da revolta e o encrudescimento da luta pelas liberdades democráticas, Andrade transformou a ideia em filme e este ganhou inclusive a medalha de ouro no festival de Moscou.

A ditadura acabou, mas muitas pessoas continuam virando suco. Afinal que máquina cruel é esta, de início justificada pela força bruta, atuando nos subjetivismos, com o objetivo de moldar os sujeitos a um modelo interessante ao sistema? E mais, sem o uso da força bruta, como ainda entramos, tão automaticamente na fila de sucção dessa máquina?

O mundo moderno e a padronização do pensamento ocidental já não deixam espaço para absolutismos, ditaduras e guerras.

Essas últimas, quando ocorrem, estão sempre muito distantes de nossa visão e se expõem como“conflitos passionais”, ligados a religião, cultura e fatores aos quais não conseguimos alcançar com clareza, principalmente no meio popular, ficando uma visão confusa dos reais motivos, muito distante do cerne da questão.

Contudo, a verdadeiramentegrande guerra ocorre ao nosso redor, tem como front a nossa vida social eivada de instituições modeladoras de comportamentos e construtoras de paradigmas.

O filósofo alemão Martin Heidegger no início do século XX produziu a obra “O Ser e o Tempo” onde o que me chama mais a atenção é o conceito de autenticidade do ser, como uma descoberta individual, dificílima em tempos modernos.

Apesar da complexidade da filosofia heideggeriana a autenticidade é uma sacada atual, um grito pela liberdade de construção, individual e subjetiva, do ser humano. Está integralmente ligada a liberdade dentro de sua própria possibilidade, sem o balizamento externo.

Desde Sócrates, a modelagem do ser é uma imposição social, o cultivo das virtudes individuais e daPolis.

À partir daí a autenticidade passou a ser uma tensão.Acima dela, foi colocada a necessidade de modelamento comportamental, para facilitar a gerência da vidacoletiva.

Assumir-se como ser de “possibilidades”e “autodeterminação” confronta toda a Razão Instrumental (Max Horkheimer – Teoria Crítica – Escola de Frankfurt) imposta às sociedades pela modernidade e necessidade de vida coletiva.

Naturalmente, como o mundo é formado por pessoas de todas as intenções, há sempre os metidos a espertos, que querem, e muitas vezes conseguem, moldar o comportamento humano à funcionalidade tranquila e conveniente da “sociedade” (a que lhe interessa).

É preciso ficar alerta para que, mesmo nossas próprias instituições, não venham a nos escravizar, principalmente quandotomadas pelos tiranos modernos.


Seja o Estado, que criamos para regular a vida em sociedade, a igreja para contribuir em nosso esforço de transcendência, a escola para nos “educar” para a vida,ou qualquer outra instituição, criada com objetivo mais sublime que se possa imaginar, precisam ser constantemente submetidas ao próprio ser, não o ser coletivo, mas o individual, para em sua subjetividade, assimilar o que está instituído, e não o contrário, ou seja, se submeter à instituição.

Desde o iluminismo aprendemos que o esclarecimento é individual e subjetivo, não havendo “receita de bolo” para o viver, pois goza o Ser da razão própria e pura(para não falarmos de iluminismo sem Immanuel Kant), que a vida deve ser essencialmente livre e autêntica, mas também precisamos considerar que a liberdade permite inclusive, preferir ser inautêntico.Deixar-se levar/dominar pelos outros, enfim, virar suco.

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