31/07/2020 às 11h01min - Atualizada em 31/07/2020 às 11h01min

Almocei com Adílio na famosa Cantina do Seu Marcos, em A Gazeta

Adílio ajudou a conduzir o Santos à primeira divisão do Capixabão

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Adílio é sábio e, portanto, simples e humilde. Havia sido contratado pelo Santos, de Barra de São Francisco, para a disputa da Segunda Divisão do Capixabão de 1991 .Foto >>> Flamaster

Estava na redação e a moça da recepção telefonou. “Adílio, do Flamengo, quer falar com alguém do Esporte”. Tremi na cadeira, parceiro.  

 

E aguardei alguns minutos, sinceramente esperando alguém cheio de marra, afinal, o craque viveu as maiores glórias do futebol, trajando o Manto e tabelando com Deus. 

 

Me surpreendi de forma contundente. Adílio é sábio e, portanto, simples e humilde. Havia sido contratado pelo Santos, de Barra de São Francisco, para a disputa da Segunda Divisão do Capixabão de 1991. 

 

Minha adolescência foi amando aquela orquestra cujo o Adílio era músico afinadíssimo, Júnior, o Maestro; e Deus, ora bolas, o Deus. 

 

Sempre me olhando timidamente, o cracaço lembrou passagens de sua brilhante trajetória no Flamengo.  

 

“Após o técnico dar a última palestra, nos reuníamos para ouvir os mais experientes. Às vezes, os caras decidiam que deveríamos, para nos preservar, resolver o jogo nos 20 primeiros minutos e acontecia”. 

 

“Com metade do time 100% fisicamente sabíamos que a vitória era certa. Bastava deixar o jogo fluir”. 

 

“As partidas finais contra o Cobreloa, na Libertadores, foram as mais terríveis daquela geração. Eles jamais entraram para jogar futebol. Teve jogador que atuou com pedra na mão”. 

 

“Contra o Liverpool o nosso jogo encaixou. Quando acordaram não havia mais nada a fazer”. 

 

“No Maracanã adversário tremia mesmo. Poucas vezes jogamos para menos de 20 mil pessoas. Atuamos em finais com mais de 100 mil torcedores. As arquibancadas balançavam”. 

 

Sobre jogar ao lado de Deus, Adílio abriu largo sorriso ao responder. “Quando Ele acordava inspirado, o bicho era certo após o jogo. Pelo menos um gol, Ele deixava. Quando a partida complicava, bastava cavar uma falta perto da área. A galera da barreira ficava de costas para a cobrança para ver a bola estufar a rede”, gargalhamos. 

 

Acontece que nosso papo encerrou e ainda não havia chegado o repórter fotográfico, que cobria incêndio na Serra.  

 

Foi, então, que o convidei para almoçar no restaurante do jornal ou melhor: na “Cantina do Seu Marcos” e ele aceitou. 

 

Descemos, entramos no recinto e percebi olhares curiosos e cheios, digamos, de inveja. Adílio deu autógrafos e recebeu abraços apertados.  

 

Depois, se serviu e antes de almoçar fez breve oração. Em 30 minutos já estávamos novamente na redação, com “aquele” cheiro marcante de comida da cantina nas roupas, que só passava duas horas depois, com alguma sorte. 

 

Peguei as duas comandas (que ficavam nos bloquinhos espalhados nas mesas), e assinei o valor das refeições para descontar no salário no final do mês. Não precisa nem dizer que o Adílio comeu metade do que o glutão aqui. 

 

 

Acho que 20 dias após, cobri jogo do Santos contra o Glória, na Glória, em Vila Velha, onde fui muito bem tratado no estádio acanhado, mas de gente acolhedora.  

 

Ganhei, além de água filtrada congelada em um litro de Coca Cola vazio, uma Fanta laranja geladinha para dividir com “minha” equipe, além de três saborosas coxinhas de galinha e punhado de copos plásticos. 

 

O sol estava bastante forte, Adílio teve atuação discreta.  

 

Após o jogo o entrevistei e o craque, exausto, falou o que todo jogador fala e se despediu com três tapinhas em meu ombro. 

 

O Santos foi para a final contra o Ipiranga, de Afonso Claudio. O clube, criado em 8 de março de 1964 e conhecido como “Terror do Norte”, perdeu em casa por 1 a 0 na primeira partida e também em Afonso Cláudio.  

 

Foi quando encontrei novamente e, pela última vez, o Adílio. Sua missão estava cumprida. Ajudou a conduzir o Santos à primeira divisão do Capixabão. 

 

O indaguei se não estava na hora de parar. Sábio, tolerou minha afronta. E disparou. “O jogador não para com o futebol. É o futebol que para com ele. Estes momentos são os mais dolorosos da carreira. É a decisão mais difícil que tomamos na vida”. 

 

E se foi com seus passos de bailarino. 

 

Aprendi um pouco mais com um dos meus maiores ídolos. Decisões definitivas são repletas de dor, não é mesmo? 

 

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