04/08/2020 às 07h26min - Atualizada em 04/08/2020 às 07h26min

Meninas do Irã comemoravam cada gol como crianças, maior sensação de liberdade que podiam ter

O evento tomou conta da Grande Vitória. Virou febre, principalmente entre os desportistas

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
A seleção do Irã foi eleita a mais simpática do evento. Os torcedores aplaudiram de pé. Foto >>> Divulgação


Já tinha mais de 20 anos de carreira. No lombo, Jogos Paralímpicos de Sydney, Jogos Panamericanos do Rio, além de punhado de eventos sul-americanos, nacionais e regionais, mas não conseguia emplacar na imprensa capixaba o primeiro Campeonato Mundial Feminino Universitário de Futsal. 
 
A Lorena, minha sócia, foi até à Igreja Católica, da pracinha de Jardim Camburi, rezar para ver se Deus sensibilizasse, de alguma forma, os editores e nada. 
 
Percebemos, rapidinho, que não adiantava suar a camisa da Pauta Livre Assessoria de Imprensa: o Mundial tinha naufragado e teríamos que olhar os organizadores e as mais de dez delegações estrangeiras com olhos envergonhados. 
 
Cabisbaixos, fomos cobrir o treino da seleção do Irã. Quando as meninas entraram em quadra estampamos sorrisos redentores em nossas caras, agora assustadas. 
 
Percebemos, imediatamente, que havíamos salvado nossas peles. As meninas refletiam os efeitos da Revolução Islâmica de 1979, que limitou, ao máximo, os direitos das mulheres. 
 
Bastou observar seus uniformes, especialmente aprovados pela comissão organizadora: calça e camisas cobrindo tudo, além dos hijabs nas cabeças. 
 
Produzimos, rapidinho, material e enviamos, antes das reuniões de pauta, lá pelas 10 horas, para as redações. 
 
No final do dia, repórteres, como enxames de abelhas, apareceram no hotel onde estavam hospedadas. 
 
O evento tomou conta da Grande Vitória. Virou febre, principalmente entre os desportistas.

Em profusão, imprensa nacional nos pediu material.  
 
Seis jogos por dia e dois lotavam o Ginásio do DED: o da seleção do Brasil e o da seleção do Irã. 
 
As meninas do Irã não podiam tocar em homens, somente nos seus maridos. Nem sequer apertar a mão, gesto universal de cordialidade. Nem dos árbitros, nas quatro linhas.

Mas adoravam o contato com outras atletas. Nas festas, não foram. Na praia, nem pensar. 
 
Quando faziam gols, comemoravam como crianças. Era a maior sensação de liberdade que podiam ter.  
 
Eram lindas. Percebia-se facilmente, apesar do mar de pano que carregavam em seus corpos. Todas com sobrancelhas bem grossas, para os padrões ocidentais. 
 
A seleção do Irã foi eleita a mais simpática do evento. Os torcedores aplaudiram de pé.  
 
Na premiação, o presidente da Federação Universitária de Esportes Capixaba (FUEC), Claudio Marinho estendeu a mão para a capitã e ficou no vácuo. Ginásio gargalhou sem piedade. 
 
Nos jogos decisivos, o ginásio lotou tanto que a organização teve que instalar telões do lado de fora. O Brasil bateu Portugal e foi campeão. 
 
O almoço de encerramento foi na sede da Marinha, perto da Praça do Papa.

Serviram churrasco. Vi as meninas do Irã mastigando, bravamente, nacos de carne. Só ali percebi que eram humanas e não anjos. 
 

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