11/08/2020 às 07h26min - Atualizada em 11/08/2020 às 07h26min

Soco na boca do estômago me ressuscitou na pista de atletismo da Ufes

Ao avistar o Robson Genizelli tive imediata injeção de adrenalina na alma

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Amputado do braço esquerdo e cego do olho direito, Robson se submetia a treinos intensos de natação, ciclismo e corrida para se superar em modalidade considerada a mais extenuante do planeta. Foto>>>Peter Falcão

Bebendo com jornalista veterano, o saudoso Graciano Dantas, este disse:  

 

“O problema de grande parte dos jornalistas é a vaidade. Vibra com a primeira página, com matéria assinada, com elogios do editor, mas no final do mês não tem um puto no bolso. Se cair na vala do desemprego, envelhece doente, sem plano de saúde e com pouco mais de um mínimo por mês”. 

 

Eu gostava bastante dele. E passei a refletir sobre o assunto. 
 

Graciano fez matéria sobre prostituição infantil em São Mateus, retratando, dentre outras, uma menina linda de 12 anos. Quase duas décadas depois voltou lá e a reencontrou no mesmo local e na mesma atividade. 

 

É o jornalismo em sua essência. 

 

Pois bem. Estava passando por momento confuso em minha vida profissional.  

 

Repórter de Esportes quando se destaca tem como “prêmio” convite para ingressar em outra editoria. Quando não aceita é acusado de não querer “crescer na profissão”. 

 

Começava a perceber que havia entrado em enrascada danada com este negócio de ser jornalista. Estava tomando muitos goles e a passos largos para conhecer a tão falada depressão. 

 

E os quilos que havia perdido à base de caminhadas e moderadores de apetite tarja preta, voltavam em dobro. Bastava os conflitos entrar, sem bater na porta, em minha cabeça. 

 

O cenário estava sombrio. E nada de Moisés a abrir a Praia de Camburi para eu conhecer novo mundo. 

 

Caminhando com minhas reflexões pelas ruas de Jardim Camburi cruzei com o Robson Vetlher, primeiro campeão do Triathlon do Exército, que treinava equipe da modalidade. 

 

Ele me disse que treinava amigo de infância, também chamado Robson, que seria o primeiro atleta do Estado, portador de deficiência a competir oficialmente no Triathlon. 

 

Marcamos na pista de atletismo da Ufes e ao avistar o Robson Genizelli tive imediata injeção de adrenalina na alma. 

 

Amputado do braço esquerdo e cego do olho direito, Robson se submetia a treinos intensos de natação, ciclismo e corrida para se superar em modalidade considerada a mais extenuante do planeta. Seria o quinto oficialmente em todo o Brasil.  

 

Apesar dos revezes ocorridos em função de atropelamento, provocado por motorista bêbado, seguia firme, com sorriso oceânico na boca. 

 

Voltei para a redação e quando baixava a cabeça, acusando soco no estômago, levantava antes de cair na lona, pensando no Robson. 

 

Fiquei mais alguns anos no jornal A Gazeta. Um dia pedi para sair. Mas sigo em frente. Luto até hoje como jornalista. Afinal, jornalista que não tem crises existenciais e dissabores ao decorrer da carreira, não é jornalista. 

 

Dia destes parei para conversar com o Vetlher,  o primeiro campeão do Triathlon do Exército, treinador do xará Robson.  

 

Inacreditavelmente passou a filha do atleta e o cumprimentou. 

 

Ele me apresentou como o repórter que havia feito a matéria sobre seu pai. Ela me abraçou com olhos nublados e agradeceu com abraço e gratidão profunda. 

 

Eu fui andando, com passos miúdos, em direção à minha casa.  

 

E falei baixinho, com muitas recordações na cabeça e no coração: “Eu quem agradeço, menina. Eu quem agradeço”. 

 

 


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