28/08/2020 às 16h54min - Atualizada em 28/08/2020 às 16h54min

Ser e parecer ser

Muito da solidariedade que assistimos em tempos de pandemia não é mais que uma parcela do pagamento de dívidas sociais

- Everaldo Barreto Moura
Não podemos esquecer que construímos um sistema que só sobrevive por meio de desigualdades. Foto: Ilustração Web
Ainda com referência ao que escrevi na semana passada - Razão, paixão e vida social - vale ressaltar que a imposição do modelo do ser socrático em nossa cultura, muitas vezes, leva o próprio ser a se perder, no sentido de: perder-se de si mesmo.

A maioria das ações desse ser está sempre voltada para um “seu lugar”, construído em uma trajetória de vida nem sempre virtuosa, que o engessa num comportamento condizente com essa imagem aplaudida pela sociedade, de vencedor, na verdade de melhor que os outros que derrotou na caminhada.

Pior, esse “posto”, “status” conquistados não lhe permitem a menor chance de mudança, que lhe seria vexatório, o que estremece o túmulo de Heráclito, afinal: tudo muda o tempo todo.

Outra consequência dramática é a construção de máscaras para a boa aceitação social desse ser. Nesses tempos de pandemia, com a necessidade de socorro pipocando para todo lado, claro reflexo de um Estado egoísta que construímos, estamos aplaudindo as ações solidárias de pessoas e empresas a todo momento expostas nas mídias.

Contudo, vale aqui uma pergunta odienta: o que motiva essas ações? Seria o sentimento proativo de compaixão? Aquele que move a ponto de se sentir responsável e agir?

Se sim, onde ele estava antes da pandemia, frente a esses mesmos males ? Ou será que tem mais coisa aí?

Bem, conhecendo a necessidade e utilidade desse socorro, só temos a valorizar essas ações, mas me incomoda o velho Maquiavel quando reflito que: muitas dessas mesmas pessoas e empresas, em geral, se mantiveram acomodadas numa zona de conforto, ou até mesmo participando ativamente da produção dessas desigualdades e condições miseráveis, que existiam antes do desastre da pandemia e continuarão existindo depois dele.

Acumularam lucros, exploraram os pequenos, destruíram concorrentes, usufruíram desses seus bens e dormiram muito bem todo esse tempo.

Histórias de sucesso que deixaram rastros de destruição como a de grandes frigoríficos que eliminaram açougues, grandes redes de supermercados que acabaram com as mercearias de bairro, poderosos consórcios de shopping centers que monopolizaram o comércio e muito mais exemplos que poderíamos citar, para deixar muito claro, não só na selvageria da concorrência, mas também no dia-a-dia das pessoas que têm por regra a velha “lei de Gerson”.

Naturalmente, para o que vivemos, as ações solidárias são necessárias e imprescindíveis.

Contudo, não podemos esquecer que construímos um sistema que só sobrevive por meio de desigualdades, esquecemos a função do Estado como o gerenciador de nossas vidas coletivas, não nos importando com o fracasso no desempenho de sua função.

Justificamos a pobreza e a miséria transferindo a responsabilidade para suas vítimas, nas alegações de vagabundagem, incompetência, viciação, etc. Tergiversamos as responsabilidades coletivas e separamos as pessoas em vencedores e fracassados dentro de um abismo entre as oportunidades oferecidas a todos.

Por fim, entendo que a maior ação solidária é a ação política, voltada a construção de uma sociedade menos competitiva, mais justa e solidária, consciente de seu passivo histórico gerado na expropriação de bens e oportunidades, exploração e submissão dos mais fracos.

Não retirando dos pobres para os paupérrimos, como disse o presidente, mas tributando as grandes fortunas e heranças, assumindo a posse coletiva dos recursos naturais explorados sempre pelas elites, fazendo dessa vingança, travestida de justiça, uma leitora real dos fatos, sem a contaminação do sistema competitivo, para que aqueles que foram empurrados para traz, ou erraram, tenham oportunidade de reconhecer seu erro, reparar, se reerguer e reconstruir sua vida.

Penso que esse homem político e consciente é que seria o verdadeiro socrático, trabalhando a construção de uma sociedade sustentável coletivamente, ainda que evoluído para o ser potente dos dias atuais, como dizia Chê Guevara, sem perder a ternura.
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