01/09/2020 às 13h13min - Atualizada em 01/09/2020 às 13h13min

Na Opera House, cheio de veneno, aprendi com Ádria o que realmente é ser vencedor

A atleta cega brasileira Ádria Rocha dos Santos venceu os 100 metros rasos em Sidney

- Perter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Ádria, nascida em Nanuque (MG), uma batalhadora, que sofreu de retinose pigmentar, doença degenerativa, foi ainda prata nos 400 metros. Foto: Divulgação
Em 31 anos de Jornalismo, prezado, vi vencedores de todos os tipos. E perdedores também. E antecipo-me a dizer que, muitas vezes, admiro muito mais o derrotado.
 
Vencer é consequência, mas não é parâmetro para valores muito mais importantes na existência. A frase “vencer na vida” me enoja, parceiro.

Compreendo também que saber perder é grande virtude. E deveria ser algo inerente a atletas de alto nível, ainda mais dos que disputam competições de imensa abrangência, como, por exemplo, os Jogos Paralímpicos. 

Mas, fato chocou o mundo esportivo durante as provas de atletismo da Paralimpíada de Sydney em 2000. 

 A atleta cega brasileira Ádria Rocha dos Santos venceu os 100 metros rasos, ao lado do seu guia, Gerson Knitell, de Joinville. 

 Cruzaram a linha, se abraçaram e rodopiaram como bailarinos na comemoração. Arrancaram aplausos do público que lotou o estádio paralímpico e lágrimas de muitos brasileiros. As minhas em profusão.

 Veio a prova dos 200 rasos, Ádria começou liderando, mas foi ultrapassada pela espanhola Purificacion Santamarta, que cruzou a linha de chegada com meio metro de vantagem.

 Acontece que o telão do estádio mostrou claramente o guia da espanhola a “puxando”, burlando a regra da prova, correndo à sua frente e não atrás dela como é o estabelecido.

 Atento, o chefe da missão do Brasil protestou e ficamos por ali na área mista esperando as atletas e o resultado final. 

 Vibramos, como meninos ao ganharem presente novo, quando o placar trouxe a desclassificação da espanhola e a segunda medalha de ouro da Ádria na Paralimpíada.

 Vale destacar que Purificacion venceu a Ádria na Paralimpíada de Atlanta (EUA), quatro anos antes, nas duas provas. O mesmo ocorreu em quase todos os Mundiais no chamado “Ciclo Paralímpico”. Ádria, calada, trabalhou duro.

 Vieram a espanhola e o seu guia. Ficaram a meio metro de nós e dos jornalistas espanhóis. Segurava na mão a tampa de um Gatorade. Indagada sobre sua desclassificação lançou a “pérola”.

 “Sei que fui a vencedora e isso é o que importa. Medalha para mim é como esta tampa de isotônico”.

 Os jornalistas espanhóis nos olharam perplexos. E nós os olhamos mais perplexos ainda. Foi duro ouvir de atleta com tantas glórias, campeã mundial e paralímpica, tamanha afronta ao significado mínimo da esportividade.

 A Ádria chegou logo em seguida e soube do depoimento da espanhola. Serena disse. “Vencer sem seguir as regras não engana somente a mim, mas a todas as demais competidoras, à organização do evento e o que é pior: a ela mesmo”.

 No outro dia, a espanhola perdeu parte do respeito que tinha, com plena justiça, no meio paralímpico. Os jornais e as televisões não perdoaram. No Brasil, até mesmo o Jornal Nacional deu destaque aos fatos.

 Ádria, nascida em Nanuque (MG), uma batalhadora, que sofreu de retinose pigmentar, doença degenerativa, foi ainda prata nos 400 metros. 
 
No outro dia foi visitar pontos turísticos com a filha Bárbara, de dez anos, e o comportamento da espanhola voltou à pauta. Estávamos cheios de “veneno” na alma, devo confessar.

 A encontramos na Opera House. A brasileira, então, nos disse: “É uma grande campeã. Estava com a cabeça quente. Não devemos julgá-la. Espero que supere as críticas e volte a competir em alto nível. Quem ganhará será o esporte”.

 Ouvimos suas palavras e aprendemos pouco mais sobre o que, na verdade, é ser um vencedor. 

 
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