25/09/2020 às 14h05min - Atualizada em 25/09/2020 às 14h05min

O sofismo do presidente

Camufla a verdade no discurso, constrói uma narrativa superficial e impõe sua modelagem do ser ao povo brasileiro.

- Everaldo Barreto é professor de Filosofia
O discurso do presidente do Brasil, na abertura da reunião da ONU, assustaria até mesmo o sofista Protágoras. Foto: Ilustração.
Na Filosofia antiga vamos encontrar um grande conflito entre o que Nietzsche chamou de doença socrática e a retórica sofista.

Enquanto Sócrates e seus seguidores defendiam a verdade, o bem e o belo como existentes em si e busca comum humana, os sofistas entendiam que é a construção do discurso que pode valorar as coisas e vendiam essa expertise para os jovens de famílias abastadas se prepararem para a defesa de seus interesses na democracia da Polis.

A defesa da construção da virtude, como traço do comportamento humano,foi derrubada pelos sofistas que defendiam o estabelecimento dessas medidas pelo próprio homem e sua conquista à partir do melhor discurso.

Não obstante as grandes contribuições dos sofistas à Filosofia e a construção de nossa cultura, essa visão trouxe mais humanidade para o “santo homem socrático”.

O discurso do presidente do Brasil, na abertura da reunião da ONU, assustaria até mesmo o sofista Protágoras vendo-o utilizar uma construção retórica conveniente e manipulada, para desviar o foco de seus principais calcanhares. Ruim para o Brasil, pois o mundo não tem somente a informação pontual de seu discurso, mas um acompanhamento diário de suas ações e repercussões de seu comportamento, não só no interior do pais.

Além do vexame da exposição de um chefe de estado que mente descaradamente em um evento da maior importância ao mundo, quero ressaltar as consequências de sua atitude na forma de nos relacionarmos.

Quando a consistência do que é falado não corresponde aos fatos, nos ensinou o poeta que é preciso “dedetizar a piscina”. Contudo, os ratos, sem a dedetização, se proliferam e contaminam, com suas pragas, toda a casa.

Basta atentar para a discussão política, junto à população e no próprio ninho do governo, para perceber a analogia. A defesa de posições nesse núcleo de pensamento está sempre ligada ao discurso e nunca aos fatos, tanto que toda dissidência, comum a qualquer grupo e fundamental à política, é tratada como traição e seu protagonista é demonizado.

Em todos os setores do governo, a transformação dos discordantes em inimigos,tem exemplos que encheriam meu texto. Naturalmente, o reflexo disso na população é ainda mais desastroso.

Assistimos o efeito didático das atitudes do presidente na boca do povo, que mesmo sabendo que o discurso é enganador, se apropria dele, muitas vezes sem perceber que sua atitude o aproxima do modelo,cuja linguagem, sofista e violenta, passa a sua pertença, sendo reproduzido, sem nenhuma crítica, pois só existe aliado e inimigo.

Questões vitais como o meio ambiente, a diversidade cultural e a convivência social são distanciadas de sua significação própria para o campo da competição ideológica e se transformam em simples objetos de competição, pois nem mesmo ideologia é explícita no mérito, mas somente a polarização e a escolha de um lado.

Reitero a importância da eleição municipal de novembro próximo como possibilidade de reflexão,para a opção,do que queremos para o nosso futuro, ante as possibilidades de desconstrução desse Brasil plural (no sentido da repetição de iguais) ou,diverso e heterogêneo no melhor sentido do termo alteridade.
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