30/09/2020 às 12h57min - Atualizada em 30/09/2020 às 12h57min

SP venceu a Libertadores, na noite suja que recordei a infância

SPFC foi bicampeão das Libertadores e do Mundial

- Perter Falcão
Pauta Livre Assessoria
O São Paulo nos anos de 1992 e 1993 teve equipe fantástica sob o comando do Telê Santana..Foto Arquivo/Internet

Das mais fortes lembranças que trago da infância, na Rua Guadalajara, bairro Santa Cecília, é quando jogávamos pelada na rua. A bola caía na casa do vizinho, e este chamava a polícia. 

 

Quando a viatura aparecia saíamos em disparada, deixando tudo para trás, incluindo as Havaianas, para desespero dos nossos pais. 

 

O São Paulo nos anos de 1992 e 1993 teve equipe fantástica sob o comando do Telê Santana. Papava tudo. Para se ter ideia, foi bicampeão das Libertadores e do Mundial.  

  

A editoria de Esportes do jornal fazia rodízio com os repórteres nas "coberturas" dos jogos noturnos, quando muitos ocorriam ao mesmo tempo. Não havia Internet. No máximo Fax. Recebíamos matérias via Telex.  

  

A maioria começava às 22 horas. "Cobríamos” por meio da televisão, em preto e branco, minúscula. Quando os jogos não eram transmitidos pela telinha, usávamos rádio grandão, com Bombril na ponta da antena.  

  

No caso dos rádios, quando a frequência saía do ar, era pandemônio recuperar as informações. Jornal fechando e o texto tinha que sair para não o atrasar.   

  

Quando não tinha jeito, éramos obrigados a inventar alguma cascata para descrever, por exemplo, o gol.  

  

No outro dia era conferir, via a televisão, a besteira que havíamos escrito e procurar relaxar.   

  

Com o tempo aprendemos a necessidade de não “enfeitar demais o pavão” para não ter dor de cabeça extra.  

  

Um dia “cobri” jogo do São Paulo contra a Universidade Católica, do Chile. O clube brasileiro enfiou 5 a 1, jogando em casa, com 99 mil pessoas no estádio, e venceu a Libertadores, em maio de 1993.  

  

Foi moleza. Datilografei em três cópias, com papel carbono novinho, cerca de 25 linhas, e entreguei ao Clodomir Bertoldi, nosso espetacular redator, que ficava até bem mais tarde de plantão, também "cuidando" de um ou mais jogos para editar, enfim, a página.  

  

Fui embora pelos fundos de A Gazeta, lá pela meia noite. Passei pela Ilha de Santa Maria, em direção à Santa Cecília, onde residia, no trajeto tradicional de 30 minutos, mas, glutão, cismei de parar em trailer em uma das esquinas da Avenida Paulino Muller.  

  

Pedi sanduba, não lembro qual, e cerveja para aguardar. Mais seis pessoas estavam por ali.  

  

Um rapaz negro, muito simpático, cabelo bem cortado, com delicadas curvas feitas com navalha, pegou o dinheiro do bolso e entregou ao dono do estabelecimento.  

  

“Estão faltando 20 centavos. Posso te entregar amanhã”, indagou, solícito.  

  

O dono do trailer, tomado por péssimo humor, devolveu-lhe palavras ríspidas, em sonora humilhação.  

  

Eu estava a três metros do balcão e vi tudo com nitidez de detalhes.  

 

O negão tirou o 38 da cintura, que reluziu no "foco" da lâmpada fluorescente, e disse:   

  

“Então passa a grana toda que você tem aí, senão te meto um tiro, seu mané”. Recolheu o dinheiro e saiu correndo rumo ao Romão.  

 

Dez minutos depois chegaram duas viaturas da polícia. Uma seguiu atrás do meliante e a outra ficou por ali mesmo, iniciando revista caprichada na galera que lanchava.  

  

Me mandaram ir para o paredão e colocar os braços no cimento com chapisco. Revistaram com força, fazendo omelete dos meus ovos.   

  

Pediram documento e apresentei o crachá do jornal que estava no meu bolso. Aparentemente desconcertados, me liberaram e fui embora.   

  

Caminhando, olhei para trás e percebi que tudo estava se resolvendo, mas havia ainda um problema: Não paguei a conta. Não tinha clima para isso. Estava em pânico com a situação.  

  

Me preparando para subir a Rua Guadalajara, viatura parou ao meu lado para abordagem de praxe já quase às duas horas da manhã. Pensei: “ferrou”.  

  

Mas os policiais me reconheceram, do episódio do trailer e disseram somente “boa noite”. Eu devolvi: “boa noite”.  

 

Ligaram o carro, andaram mais alguns metros e pararam. Aí, perguntaram: “Quer que te levemos até lá?”.  

  

Instintivamente, com olhos arregalados, e mais rápido do que a velocidade da luz, falei: “Não, obrigado”.  

  

Eles perceberam o meu cagaço e gargalharam.  

  

Naquela noite tive inveja do sono tranquilo dos tricolores paulistas!  

 

Em tempo: A conta jamais paguei.  Foi minha indenização, digamos, pelos danos morais. Não tem sujeito que odeio mais do que o vacilão. 

  

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