02/10/2020 às 14h15min - Atualizada em 02/10/2020 às 14h15min

'Você não vê ninguém, mas é observada o tempo todo', conta brasileira que fez quarentena obrigatória ao chegar à Nova Zelândia

Para entrar no país, ela, o marido e a filha de 2 anos tiveram que ficar isolados em um quarto de hotel por duas semanas

Agência Público
A comida — gratuita, mas nada apetitosa, é servida em prato de papelão — era deixada na porta do quarto três vezes ao dia, no café-da-manhã, almoço e jantar. Foto: Ilustração
A analista de Recursos Humanos Roberta Oliveira, de 38 anos, precisou viajar à Nova Zelândia em setembro para acompanhar o marido, que é neozelandês.

Ao chegar ao país, eles e a filha de 2 anos tiveram que cumprir quarentena em um hotel estabelecido pelo governo.  Reconhecida mundialmente como um caso de sucesso no controle da pandemia de coronavírus, a Nova Zelândia estabeleceu 
regras bastante rígidas de isolamento e rastreamento do vírus.

Lá, a família ficou a maior parte do tempo fechada em um quarto de 30 metros quadrados, durante duas semanas. Roberta falou aAgência Nacional da “angústia” desses dias, mas também do “alívio” que é saber que se está seguro.

Meu voo para Auckland, na Nova Zelândia, foi cancelado quatro vezes — está superconfuso fazer viagens internacionais. Da última vez, o cancelamento aconteceu apenas 20 horas antes do meu embarque, e como você precisa fazer o exame PCR com no máximo 48 horas de antecedência, isso me causou um estresse danado. Além disso, o teste custa quase R$ 1 mil, e aqui somos eu, meu marido e minha filha de dois anos. Quando enfim confirmaram a nossa viagem, tivemos apenas quatro dias para nos preparar.

Foram 45 horas do Rio de Janeiro até Auckland, com escalas em São Paulo, no Catar e na Austrália. Os aeroportos internacionais estavam vazios — num dos voos havia apenas 60 pessoas para os 300 lugares disponíveis. Mas no voo Rio-São Paulo, a situação era bastante diferente: no check-in, as pessoas não respeitavam o distanciamento seguro; na aeronave, os assentos estavam lotados e muitas pessoas não usavam máscara.
Como a tripulação não solicitou aos passageiros que cobrissem nariz e boca, eu mesma decidi resolver isso, porque estava me incomodando. Pedi para um homem perto de mim colocar a máscara. Ele se recusou, disse que não iria vesti-la porque não era lei. Eu respondi que não era lei, mas era dever de cidadão proteger os demais. Aí começou uma confusão, a ponto de a aeromoça intervir. Quando vi, o avião inteiro estava gritando “máscara! máscara! máscara” e minha filha batia palmas, achando que era parabéns. Meu marido afundou na poltrona, morto de vergonha.

A primeira coisa que você ouve ao chegar à Nova Zelândia é uma mensagem do Ministério da Saúde, transmitida pelo sistema de som da aeronave, informando como será o procedimento de isolamento e triagem após o pouso. O único aeroporto internacional que está funcionando é o de Auckland — é de lá que as autoridades distribuem os passageiros. O meu voo, que tinha umas 60 pessoas, foi encaminhado para um hotel de isolamento estabelecido pelo governo em Hamilton — uma viagem de cerca de 1 hora e 40 minutos de ônibus, tudo pago pelo Estado.

Antes disso, uma equipe de enfermeiros mediu nossa temperatura e fez uma série de perguntas sobre a nossa origem e estado de saúde. No hotel, você é recebido pelo Exército, enquanto espera a equipe de enfermagem checar novamente sua temperatura e possíveis sintomas. De lá, eles te encaminham direto para o quarto onde você e sua família vão ficar — um cômodo de cerca de 30 metros quadrados, de onde você não pode sair, exceto em raras exceções.

A comida — gratuita, mas nada apetitosa, é servida em prato de papelão — era deixada na porta do quarto três vezes ao dia, no café-da-manhã, almoço e jantar. Permitiam que você pedisse comida por aplicativo, mas tudo passava por uma triagem de segurança antes de chegar ao quarto. Se o pedido viesse errado, você não podia fazer nada, porque, por questões de segurança, a equipe do hotel não tocava em nada que entrasse nos quartos.

Eu podia sair para fumar a hora que quisesse, mas tinha um local específico pra isso, com cones sinalizando uma distância de 2 metros entre as pessoas. As pessoas não são autorizadas a conversar com ninguém na área de fumante, mas como boa brasileira que sou, não resisti num dos dias. Assim que parei de falar, um militar se aproximou e disse em tom polido: “A senhora já acabou acabou de fumar? Aqui não é lugar de socialização”.

Uma vez ao dia também era permitido se exercitar no estacionamento enorme do hotel. Eles chamavam isso de “fitness time”, mas era basicamente ficar andando em círculos durantes 40 a 60 minutos.  Diariamente, fazíamos um check-up médico. No terceiro e no décimo-segundo dias de isolamento, também precisamos fazer o PCR, incluindo as crianças menores de 10 anos.

Minha filha teve diarreia durante dois dias devido à comida fornecida — o menu infantil incluía, basicamente, combinações de bacon, salsicha, pizza, hambúrguer e uma comida local bastante apimentada. Como diarreia é um dos sintomas da Covid-19, ela não podia sair do quarto, e uma enfermeira ia todos os dias checar como ela estava.

 

Fomos liberados na sexta-feira passada, depois de duas semanas de quarentena. Na primeira vez que levei minha filha ao parque depois disso, ela começou a chorar na hora de voltar pra casa. “Não quero ficar dentro, quero ficar fora pra sempre, mamãe”, ela dizia.

Foi um estresse emocional muito grande durante o período de isolamento. Não achei que seria tanto. Mesmo que você saiba que aquilo tem um prazo pra acabar, dá uma sensação de angústia. Eu brigava com meu marido todos os dias. Não sei explicar por quê. Tudo era motivo. Parece que é fácil, mas não é. Você não vê ninguém, mas é observado o tempo todo. Dá vontade de chorar, de sair correndo. Os protocolos são muito rígidos. Apesar disso, você agradece no final, porque se sente seguro. É como se estivesse num lugar completamente diferente do restante do mundo. É o preço que se paga pela liberdade.

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