13/10/2020 às 07h12min - Atualizada em 13/10/2020 às 07h12min

​É com esse que eu vou!

Sobre o cuidado para não sermos enganados por modelos distantes de nossa realidade.

- Everaldo Barreto é professor de Filosofia
A eleição municipal é uma ótima oportunidade de buscar as semelhanças ao povo sofrido na escolha de seus representantes, freando a manutenção e multiplicação de seus algozes.diz o filósofo Barreto. Foto: Ilustrativa
Nossa constituição declara, como princípio fundamental, que: “todo o poder emana do povo”. Emblemática e ao mesmo tempo enigmática declaração.

Emblemática se pensarmos no sentido literal da sentença, que refere a possibilidade de construção de um governo totalmente voltado ao interesse da população, e enigmática em seu resultado prático, que revela um governo sempre voltado para a minoria, detentora do poder econômico, sendo o interesse “maior” nas prioridades dos governantes.

Se aprofundarmos essa reflexão teremos uma grande dificuldade para entender por que o povo emana um poder que está sempre voltado para interesses maiores que os comuns a “ele”.

Ao se apresentarem, aqueles que buscam o “voto de confiança” do povo, mesmo os mais simples, que infelizmente são raros, nunca assumem “a cara” do povo. Como nada é tão ruim que não possa piorar, aqueles que agem assim, raramente se elegem e comumente viram motivo de piada pelo próprio povo, até mesmo por ser uma pessoa comum.

Então precisamos refletir sobre - o que leva o cidadão comum a escolherseu representante - tarefa extremamente complexa, se quisermos ir além da superfície da questão.

Naturalmente o próprio cargo a ser ocupado pelo representante eleito, oferece a ele condições de possibilidades muito adversas às do povo em geral, à começar pelos proventos e regalias, passando pela vestimenta que o cargo lhe “impõe”, uma vez que “os eventos oficiais exigem”, e, numa busca simplória, motoristas, secretárias, seguranças, cartões corporativos, apartamentos funcionais, passagens aéreas, enfim, inúmeros distanciamentos daquele seu representado, de sua vida, suas rotinas, seus territórios, sua visão de mundo e de si mesmo.

O que transparece é que na hora de escolher entre o que parece comigo e o que parece, com o que “eu gostaria de ser”, a segunda opção é mais frequente,à despeito de: o “ser”, do que “eu gostaria de ser” tem sua base muito mais no “ter”. Por isso mesmo, para que a reflexão tenha um resultado mais aproximado dos fatos precisamos investigar o que leva as pessoas, mais frequentemente, à essa segunda opção.

Arriscaríamos aqui o caminho da reflexão pela busca da origem, arché,dos componentes que efetivamente constituem a construção da visão de si mesmo no seio da população, ou seja, os valores que demonstram um ser “vitorioso” ou “fracassado” em nossa sociedade.

No geral, tais valores,tem origem no acúmulo de bens(infelizmente desconectados até mesmo da forma com que foram acumulados), com aaparência (à partir de um estereótipo eurocentrado), com os relacionamentos “importantes”(voltados à troca de favorecimentos e influências), em suma (numa antiga e tóxica tradição brasileira), com o levar vantagem (lei de Gerson).

Observando que as origens aqui elencadas estão todas entranhadas em nossa cultura, vamos tentar uma descontaminação da reflexão bebendo em fontes distanciadas.

Na filosofia africana,a valorização da infância, numa metáfora do início das coisas, de voltar ao início, em busca dos valores mais identificados com as pessoas que com as coisas e menos ainda, com a prática sistêmica em nosso pensamento, de coisificação das próprias pessoas na insistência de impregnação de uma essência para a existência do ser, (QUE É LIVRE E INACABADO ATÉ SUA MORTE).

A vida nos pequenos coletivos de vivência, comunidades tribais, quilombos, onde a identificação se dá de forma direta, na linguagem como um todo, aceitação de cada ser como peça importante do conjunto.

Da necessidade de constante avaliação e reavaliação de seu papel e seu lugar no mundo,como chance de vermos afirmações teóricas, como a da constituição, refletirem um mundo prático a que se propõe.

A eleição municipal é uma ótima oportunidade de buscar as semelhanças ao povo sofrido na escolha de seus representantes, freando a manutenção e multiplicação de seus algozes.

 "O que os Filhos das Trevas fazem, qualquer criança desfaz brincando”.
 
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Quais são os piores motoristas de Colatina

45.1%
24.2%
30.8%
Moeda Valor
Servidor Indisponível ...