22/10/2020 às 19h04min - Atualizada em 22/10/2020 às 19h04min

No Beco do Mijo: “Bolinha tá aqui, bolinha tá ali; bolinha tá onde patrão?”

Meu amigo perdeu até ver evaporar em poucos minutos todo o seu salário

- Perter Falcão
Saudades nenhuma do Beco do Mijo. E nem da banca de revista. .Foto: Ilustração


Conheço Celso desde a época que estudava no ginasial, em Santo Antônio.

Hoje convivemos nas redes sociais. Percebo que é zeloso vovô e ainda apaixonado flamenguista, como eu. 

 

Com 23 anos, o Celso trabalhava em ótica e eu, com 17, em banca de revista, localizada no famoso “Beco do Mijo”, em frente ao Teatro Glória. 

 

Em dia ensolarado, aparece rapaz, com jornal dobrado, com três tampinhas de garrafa em cima e uma bolinha de ferro debaixo de uma delas.  

 

Veio para cima de mim querendo apostar dinheiro. Duvidou que eu adivinhasse onde estaria a bolinha, após movimentar, habilmente, as tampinhas. Tive grande impulso em aceitar, confesso. Tinha certeza onda estaria a bolinha, mas, sonolento, esquivei. 

 

Do lado oposto do beco, surgiu outro rapaz, com costeleta enorme, estilo Emerson Fittipaldi, que topou a treta e começou a ganhar, seguidamente, a aposta.  

 

Era dia primeiro do mês. Celso se empolgou e, aproveitando o movimento fraco da loja, foi lá “jogar” também. 

 

“Bolinha está aqui, bolinha está ali, onde está a bolinha, patrão?”.  

 

Meu amigo perdeu a “primeira rodada” e continuou jogando, incrédulo. Até ver evaporar, em poucos minutos, todo o seu salário. 

 

Depois observamos, o cara das tampinhas e o da costeleta enorme, pegando juntos o ônibus, com sorrisos fartos nas bocas, na Avenida Jerônimo Monteiro. 

 

Na mesma ótica, parceiro do Celso, ótimo vendedor, foi promovido a gerente. Até hoje não sei o seu nome.  

 

Chamávamos de “Bela Aurora” em referência ao bairro onde morava. Com a promoção, noivou e planejou casamento.  

 

Certo dia, o patrão resolveu testá-lo e deixou 12 cruzados a mais no caixa. Como era mísera a quantia, “Bela Aurora” embolsou. No outro dia foi demitido e o casamento foi para o saco. 

 

Também no Beco do Mijo tinha lanchonete. Adorava a balconista, Claudinha. Ela era mãe de dois filhos, mas o marido sumiu no mundo.  

 

Claudinha trabalhava um bocado, em dois turnos. Mas sempre dava fugidinha para conversarmos na banca. 

 

São memórias de mais de 35 anos. De tempo romântico, comparado aos atuais. Naquela época, as pessoas até conversavam presencialmente. 

 

Um dia fiquei no boteco até mais tarde e tive que recorrer ao ônibus bacurau no ponto do Banco Mineiro de Produção.  

 

De lá avistei Claudinha deixando o Bar Escandinávia, reduto quase cinquentenário da prostituição, localizado em frente ao Cais dos Catraieiros, abraçada a marinheiro gringo, bêbado como viking após perder a batalha. 

 

No outro dia nos olhamos. E ficamos quietos. Certamente ela percebeu que quem a espiava era o “gordinho da banca”. 

 

Eu era machista e repleto de preconceitos. Mas foram somente 15 dias de desconforto. Depois voltamos a ser amigos. Que saudades da Claudinha! Espero que esteja bem, assim como seus dois filhos. 

 

Saudades nenhuma do Beco do Mijo. E nem da banca de revista.

 

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