23/10/2020 às 12h19min - Atualizada em 23/10/2020 às 12h19min

​Vacina, religião e política

A responsabilidade de influenciar a tomada de decisão que põe em risco a vida por segundas intenções.

- Everaldo Barreto é professor de Filosofia
É verdade que a história da vacina sempre foi permeada de conflitos, lembra o pensador Barreto. Foto: Ilustração.
É verdade que a história da vacina sempre foi permeada de conflitos. No geral se combate a doença pelo contato com ela própria, o que remete à reflexão sobre a necessidade de pessoas saldáveis terem contato com uma doença.

Para a Filosofia a reflexão é importante, necessária e o melhor caminho em qualquer situação, mas também é fundamental que saia da superfície do senso comum e aprofunde, seja radical (vá até a raiz) e tenha por finalidade a busca da verdade.

No Brasil, desde a última eleição presidencial, as discussões mais importantes e necessárias têm sido vinculadas à política e a religião, aliás, em muitos setores, esses dois temas se fundiram, empobrecendo e até inviabilizando o debate.

A base da reflexão éo confronto entre necessidade e contingência com a razão sempre atendendo a necessidade e a paixão, a contingência, acidental e impulsiva, que obriga a primeira a se conduzir por terrenos de seu desconhecimento. O resultado dessa tensão resulta a ação humana, ou a vida ética.

Sem estar preso ao confronto ou competição entre os conceitos e, muito menos ao estabelecimento de primazia de um sobre o outro, podemos retornar à questão da vacina, para analisar as consequências desse conflito em nosso país.

Naturalmente precisamos primeiro analisar, dentro da visão de Martin Heidegger, quanto a autenticidade e inautenticidade na construção do ser, pois uma coisa é o ser autêntico, utilizar sua visão de mundo e de si mesmo para decidir sobre questões que dizem respeito à sua saúde e risco de morte, e outra é o ser inautêntico, cuja visão de mundo e de si é construída à partir de influências alheias, imposições institucionais de grupos sociais e políticos, os quais têm degenerado visivelmente nesses tempos.

Como vivemos esta excessiva passionalidade na política, evidenciada na última campanha presidencial por um candidato que inclusive se utiliza do nome Messias para se fazer dono do adjetivo messias (ungido, enviado, salvador) e, considerando a influência que a religião, e principalmente os líderes religiosos, exercem sobre uma enorme camada da população, o caos se anuncia. Sendo essa camada da sociedade, que superlotam os templos em busca de consolo e direcionamento frente à exclusão social, majoritariamente pouco esclarecida, é fácil perceber que vai “obedece-los” cegamente, mesmo diante de absurdos direcionamentos.

Esses líderes religiosos com suas igrejas espalhadas nas periferias e canais de comunicação e comercialização da fé, somados ao agora presidente, em sua condução política fundamentada no discurso fácil, moralista,subserviente ao governo Trump e pautado na construção de rivalidades, com a sumária condenação a qualquer possibilidade de oposição, trazem para a população falsos valores, ligados a seus interesses, construindo uma opinião nacional perigosa por sua superficialidade de reflexão e impregnação de seus interesses adversos ao interesse coletivo.

Aconteceu na discussão sobre o aborto, nas questões de gênero, no desmatamento e exploração de terras indígenas, na política internacional, no trato à pandemia e na maioria dos assuntos nacionais relevantes. Agora, a bola da vez é a vacina, defendida pela comunidade científica como única possibilidade de flexibilizar nossa convivência social em ambientes coletivos, sendo vinculada à política internacional e ao negacionismo.

Atender ao apelo da reflexão filosófica de radicalizar a investigação, para pautar a decisão de tomar ou não a vacina na autenticidade do ser, retira das mãos desses tiranos manipuladores as cordas das marionetes a que querem transformar o povo brasileiro.

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