29/10/2020 às 17h17min - Atualizada em 29/10/2020 às 17h17min

Fui vacilão com o Luxa, que me deu o troco 20 anos depois!

Mas devo confessar, nutro por ele certo carinho

- Perter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Falo de quase 40 anos, quando xinguei o Vanderley Luxemburgo, próximo ao alambrado do Engenheiro Araripe, onde ele trabalhava honestamente. Foto Marcos Ribolli

Morávamos na Rua Guadalajara, a que reunia os mais pobres do bairro Santa Cecília. 
 
Mas quando o Rio Branco jogava, arrumávamos jeito de viver a tão comentada integração social.  
 
Então, íamos na rua das casas bonitas do bairro e seguíamos no fusca do pai do Mário Benezarth, com bandeiras do Rio Branco erguidas pelas janelas em varas de bambu ou de cabos de vassouras.
 
Falo de quase 40 anos, quando xinguei o Vanderley Luxemburgo, próximo ao alambrado do Engenheiro Araripe, onde ele trabalhava honestamente.  

 É que, após dois jogos empatados entre Rio Branco e Desportiva, ele sacou o Dé Aranha, principal estrela do time, e colocou o Valdecir, aos 35 do segundo tempo, na terceira partida decisiva.

Acompanhei o coro de quase 30 mil pessoas, entre grenás e capas-pretas, e o chamei de "burro". Minutos depois, Valdecir fez o gol do título do bicampeonato. Luxa foi campeão estadual, com louvor. 

Eu era babaca em volume máximo, reconheço. Lembro quando acertei o goleiro Mazzaropi, do Vasco, com pedra lançada, na verdade, sem pretensão, em jogo amistoso, contra o Rio Branco. 

Putz, merecia ser preso. Ele olhou para trás, surpreso, e eu morri de vergonha. Na verdade, nunca pensei que o acertaria, ainda mais na cabeça de vasta cabeleira bem cuidada.  

Certa vez, o Atlético Paranaense amassou o Brancão e quando abriram o portão acabei pisoteado, perdendo relógio novinho em folha. Ou seja, era um desastre de torcedor.
 
Mas persistia. Naqueles tempos pegávamos ônibus em Fradinhos e soltávamos pertinho do Araripe. Após o jogo tínhamos uma única chance de voltarmos de ônibus, se andássemos rapidinho. 

 Mas, nada me fez pagar a injustiça que cometi com Vanderley Luxemburgo.  

E o pior veio décadas depois. Eu trabalhava em A Gazeta, Luxemburgo dirigia o Cruzeiro, brilhantemente. Fui escalado para entrevista-lo no Aeroporto de Vitória.   

É que pela Copa do Brasil se enfrentariam Rio Branco e Cruzeiro, no jogo que meu querido amigo Erich Bomfim foi chamado pelo narrador da Globo de "Zidane Capixaba".  

Pedi ajuda a um parça do futebol raiz, capa-preta, que enfatizou a necessidade da pergunta: "Por que você não cita o Rio Branco como primeiro clube profissional por qual ganhou título?" 

Fui ao Aeroporto. Todos desembarcaram por uma porta. Menos o "Pofexo". Consegui localizá-lo em outra saída. Me tratou com indiferença profunda. Fiz, então, a pergunta sugerida pelo parça.  

Ele me olhou nos olhos e fuzilou. "Você está mal informado, sempre onde vou eu falo do Rio Branco". 

Senti nas entranhas a insignificância diante do técnico vencedor, trajado com terno de alguns milhares de reais e engoli a pica.  

Fiz mais duas perguntas e ambas foram desqualificadas. Fui para a redação e o que me restou foi mostrar a má vontade do grande treinador. 

Fiz textinho criativo, no qual transcrevi o trágico "ping-pong". O editor e a chefia de reportagem curtiram, e a matéria foi para a primeira página. Pelo menos salvei minha cabeça da forca. Não graças ao Luxa. 

Para azedar ainda mais a minha relação com o "Pofexo", ele engatou série de trabalhos pífios à frente do Mengão.  

Mas devo confessar, nutro por ele certo carinho. Toda vez que fracassou nos últimos 15 anos, fui tomado por sentimento de piedade. Não sei nem por que fico dias rindo à toa. 

Não liga não Luxa, por obséquio. No fundo, no fundo, te acho o máximo. 

 

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