04/11/2020 às 15h58min - Atualizada em 04/11/2020 às 15h58min

Na primeira paixão, você vira um cão farejador

A primeira paixão te carrega com solavancos e pontapés.

- Perter Falcão
Arte do Grafite. Foto: Peter Falcão
Na primeira paixão, você se sente cão farejador. Vive à base de estímulos: o decote, o hálito de chiclete, os pelos descoloridos das pernas, o cheiro de sexo no ar, o beijo roubado na distração da tarde de céu límpido. 

Perde quase tudo, se doa, fica febril. Não existe nenhuma força tão adversa, como a primeira paixão, que te carrega com solavancos e pontapés.

Os lábios racham sedentos, transeuntes no deserto do nada. É instantânea, violenta e cruel. Não tem calmaria, até a brisa incendeia. 

Desejo incessante de romper, de não dormir, de só sentir. Quem não teve a primeira paixão não viveu. Não observou portas abrirem sem um toque sequer. Nem sentiu cheiros trazidos pelo vento de lugar nenhum. 

A primeira paixão, prezado, te corta todo. Você se sente como se estivesse na fila do abatedouro.

Pronto para ser fatiado, mesmo assim feliz. 

Se delicia com cada partícula do objeto de desejo. Cada fiapo da alma. Com qualquer líquido que suga intermitentemente.  

Na primeira paixão seu barco vai sem rumo, sem porto seguro, nem praia. Só vai. Seguindo traços do oceano, autênticos labirintos sem fim.

Você vive esquecendo chaves, o travesseiro alaga de suor, a mente borbulha aguardando respostas. Clama no sol do meio-dia, bêbado do seu próprio perfume, rogando clemência, pobre perdedor. 

De vez em quando, profano, pode julgar até que o universo conspira contra ti. Somente contra ti. 

Não tem jeito: a primeira paixão abre crateras abissais, cicatrizes horrendas, cirroses, desejos insanos.  

Se conseguir sobreviver, parabéns: terá percorrido longo caminho em grutas jamais exploradas, dentro de você mesmo. Não duvide: a primeira paixão é a primeira morte. E o renascimento. 

 
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Quais são os piores motoristas de Colatina

46.4%
23.4%
30.2%