06/11/2020 às 07h13min - Atualizada em 06/11/2020 às 07h13min

O preço de ser mulher

Quando achávamos que evoluíamos, nossa justiça mostra o contrário.

- Everaldo Barreto é professor de Filosofia
Filosofia Na Veia
Trata de um argumento escapista, frágil e mal-intencionado, analisa o filósofo Barretinho
A postura da justiça de Florianópolis, no julgamento ocorrido no último dia 3, referente ao caso de estupro da promoter Mariana Ferrer, expõe a vergonha do machismo brasileiro institucionalizado, que escancara a vulnerabilidade de ser mulher em nosso pais.

O que assistimos, nas imagens viralizadas na rede, envergonha os homens de bem e amedronta, cada vez mais nossas mulheres, que precisam lutar para não serem culpabilizadas por todo mal que possam sofrer, frente ao horror e a barbárie da misoginia, impregnada “num mundo masculino, criado por um deus masculino para o protagonismo do macho da espécie”.

O que aconteceu na 3ª vara criminal de Santa Catarina, mais que um evento separado, foi o resultado de um forte traço cultural vindo desde a antiguidade grega, em que os homens viviam o amor entre si e “usavam” as mulheres para a reprodução. A supremacia masculina e o “uso” da mulher,foi tãointencionalmente impregnado em nossa cultura, que até o mito da criação, na tradição religiosa ocidental, naturalmente criado por um homem, traz o uso da mulher para acompanhar o homem que se sentia só, é simplificada em sua constituição original, vindo de uma única costela daquele e responsabilizada pelo mal que ele praticou.

Hoje, até mesmo na formação do machista misógino, a mulher é responsabilizada em muitos discursos, que alegam que desde a educação no lar, ela própria, no papel de mãe educadora, estabelece privilégios aos filhos homens e afazeres e responsabilidade às filhas mulheres.

É claro que se trata de um argumento escapista, frágil e mal-intencionado, mas que acima de tudo, participa da mesma retórica utilizada no julgamento de Santa Catarina.

Naturalmente, com muita luta e sofrimento, as mulheres têm conseguido avançar desse desastre cultural, impondo seus valores num processo de afirmação e competência, mesmo frente a toda a desigualdade construída, mas não podemos desperceber que, embora o front se dê em todos os espaços de sua convivência, é possível se estabelecer uma hierarquia útil aos resultados dessa guerra ignóbil.

Primordialmente o campo da política, mas em seu sentido lato, das relações, do jogo de poder que se estabelece a todo momento, desde os eventos de pequena grandeza como as construções narrativas, onde a mulher é suprimida na maioria dos textos em que a humanidade é expressa na palavra “homens” e comumente a expressão “todos” represente o coletivo dos homens e mulheres, até a ocupação dos cargos de alto escalão nas empresas e instituições públicas. É claro que não faltarão homens, para dizer que isso é “mi-mi-mi” e épor isso que é uma guerra.

O segundo campo de importância é a educação institucional, carreira majoritariamente feminina, no chão das escolas, e dominada pelos homens em sua gestão superior. A tomada de consciência do corpo de educadoras e educadores, da necessidade de engajamento na luta, precisa priorizar a questão e não admitir que para a mulher reste o exercício da função de “carregadoras de piano” para o show masculino.

O terceiro campo é o próprio lar, a construção do ethos familiar, essa morada espiritual que constrói os valores, estabelece o lugar de cada um e prepara o ser para a vivência social, o começo de tudo. Para essa boa construção é fundamental a harmonização do casal, quando esse existe, na criação dos filhos ou a extrema consciência do sagrado feminino, na sensibilidade fundamental da construção de uma educação familiar, para o respeito àigualdade de valorização do homem e mulher no mundo.

Essa hierarquia se expande para todos os campos da vida, tendo como fundamento, a sensibilização das pessoas em toda atuação. Contudo, não podemos desperceber que o campo da política institucional, em nossa frágil democracia, ainda é o mais eficiente.

È preciso que as mulheres, e os homens conscientes, foquem a necessidade de constituir um corpo político feminino, como estratégia de construção de um mundo melhor, de igualdade de valor entre os sexos, com a marca da sensibilidade e ternura feminina para que os Cláudio Gastão(s), Thiago Carriço(s) e Robson Marcos(s) respectivamente advogado(s), promotor(es) e juiz(es) desse bárbaro julgamento, representem cada vez mais o lixo da população brasileira.

“O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação.”
Simone de Beauvoir

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