12/11/2020 às 14h26min - Atualizada em 12/11/2020 às 14h26min

Wladimir Herzog: o homicídio que derrotou a ditadura

Herzog foi torturado e morto nos porões do Doi-CODI e tornou-se um ícone no centro do movimento pela restauração da democracia

Com seu assassinato ele se tornou um símbolo da resistência contra a ditadura. Foto:Reprodução Paulo César Dutra
O nome do iuguslavo Vlado Herzog (Vladimir) tornou-se central no movimento pela restauração da democracia no Brasil após 1964. Militante do Partido Comunista Brasileiro - PCB, ele foi torturado até a morte, aos 38 anos de idade, em 25 de outubro de 1975, nas instalações do DOI-CODI, no quartel-general do II Exército, em São Paulo, após ter se apresentado ao órgão para "prestar esclarecimentos" sobre suas "ligações e atividades criminosas do PCB".  

Naquele dia, o Serviço Nacional de Informações - SNI recebeu uma mensagem em Brasília, no Distrito Federal, no Brasil,  com o seguinte teor: "cerca de 15h, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se no DOI/CODI/II Exército". Na época, era comum que o governo divulgar que as vítimas de suas torturas e assassinatos haviam perecido por "suicídio", fuga ou atropelamento. 

Herzog nasceu na cidade de Osijek, em 1937, na Iugoslávia (atual Croácia), filho do casal de origem judaica Zigmund e Zora Herzog. Durante a IIª Guerra, para escapar do antissemitismo do Hitler, eles  fugiram para a Itália e depois para o Brasil, após o conflito. Vlado foi casado com Clarice Herzog e o casal teve dois filhos: Ivo Herzog e André Herzog. 

Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, em 1959, ele trabalhou em importantes órgãos de imprensa no Brasil, quando passou a assinar "Vladimir", ao invés de "Vlado". Na década de 1970, assumiu a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura, de São Paulo.

Em 1974, o general Ernesto Geisel tomou posse da Presidência da República com um discurso de abertura política, com a diminuição da censura, investigação das denúncias de torturas e dar maior participação aos civis no governo. Porém, o general Ednardo D'Ávila Mello, comandante do II Exército, foi contra a decisão de Geisel, pois a linha dura sentiu-se ameaçada.

O general Mello fazia afirmações de que os comunistas estariam infiltrados nos governos, federal e estadual,  provocando ira dos militares e a repressão se manteve forte. O Centro de Informações do Exército (CIE) se voltou essencialmente contra o PCB.

Em 24 de outubro de 1975, época em que Herzog já era diretor de jornalismo da TV Cultura, agentes do II Exército convocaram Vladimir para prestar depoimento sobre as ligações que ele mantinha com o PCB, partido que atuava na ilegalidade. No dia seguinte, Herzog compareceu espontaneamente ao DOI-CODI. Ele ficou preso com mais dois jornalistas, George Benigno Jatahy Duque Estrada e Rodolfo Oswaldo Konder. 

Pela manhã, Vlado, em companhia de George e Rodolfo, negou qualquer ligação ao PCB. Os dois jornalistas foram tirados da sala e levados para um corredor, de onde puderam escutar uma ordem para que se trouxesse a máquina de choques elétricos. Para abafar o som da tortura, um rádio com som alto foi ligado. Konder foi obrigado a assinar um documento no qual ele afirmava ter aliciado Vlado "para entrar no PCB". Logo, Konder foi levado à tortura e Vlado não mais foi visto com vida.

Conforme o Laudo de Encontro de Cadáver expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, Herzog se enforcara com uma tira de pano - a "cinta do macacão que o preso usava" - amarrada a uma grade a 1,63 metro de altura.

Ocorre que o macacão dos prisioneiros do DOI-CODI não tinha cinto, o qual era retirado, juntamente com os cordões dos sapatos, segundo a praxe naquele órgão. No laudo, foram anexadas fotos que mostravam os pés do prisioneiro tocando o chão, com os joelhos fletidos - posição em que o enforcamento era impossível. Foi também constatada a existência de duas marcas no pescoço, típicas de estrangulamento. 
 
A missa de 7º dia de Vladimir Herzog foi a primeira grande manifestação de protesto da sociedade civil contra as práticas da ditadura militar. Reuniu milhares de pessoas dentro e fora da Catedral da Sé, na cidade de São Paulo. Os militares tentaram impedir a missa, bloqueando a cidade inteira com barreiras policiais, impedindo o acesso à Catedral e o trânsito na cidade, mas não tiveram êxito. A cerimônia tornou um dos primeiros atos contra o regime militar.

Em 1978, o juiz federal Márcio Moraes, em sentença histórica, responsabilizou o governo federal pela morte de Herzog e pediu a apuração da autoria e das condições em que ocorrera. Entretanto nada foi feito.

Em 24 de setembro de 2012, o registro de óbito foi retificado, passando a constar que a "morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos".
 
Memória
 
Np dia 25 de outubro de 2020, completou 45 anos do assassinato do jornalista pela ditadura militar
Por Vicente Giesel Hollas (Brasil de Fato- Porto Alegre-RS) 

O jornalista Vladimir Herzog, Vlado, como era conhecido, foi assassinado pela ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) no dia 25 de outubro de 1975. No dia 25 do mês passado,   fez 45 anos. O crime aconteceu após ele ter se apresentado, de forma voluntária, a depor no Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). 

Para marcar a data, o Instituto Vladimir Herzog se prontificou a dar uma entrevista para falar um pouco da vida deste grandioso profissional da mídia. Com prestígio em nível global, o jornalista havia trabalhado em vários veículos de mídia nacionais, como o Estado de São Paulo, e internacionais, como a BBC de Londres.

“Vladimir Herzog segue vivo e presente em todas as ações do Instituto, que foi criado para manter viva sua memória e para honrar o legado e os valores que ele defendeu em vida”, comenta Rogério Sottili, diretor executivo do Instituto. Segundo ele, falar do Vlado é falar também sobre o Brasil do presente, pois, ao retomar a violência cometida no passado, as brutalidades do tempo atual também ficam mais fáceis de serem identificadas. “Ainda convivemos com a violência do Estado, com as violações de direitos humanos, com ataques contra a nossa democracia, com a perseguição aos movimentos sociais, à cultura, aos jornalistas, a toda forma de liberdade de expressão”, complementa Sottili.

O diretor comenta que é justamente pelo fato dos cidadãos brasileiros não terem conseguido lidar com o passado autoritário que violências parecidas são praticadas hoje, por um governo fascista. “Nosso compromisso ao trazer à tona a lembrança da morte de Vlado é o de lembrar o passado para não repeti-lo”.

Segundo o Instituto, criado em 2009 pela família, amigos de Vlado e ex-colegas do jornalista, “em 1978, em consequência de processo aberto pela família Herzog, o Estado brasileiro foi condenado por sentença judicial como responsável pela prisão, tortura e morte do jornalista.” O principal objetivo da criação do Instituto foi de lutar por valores que defendam a “democracia, os direitos humanos e a liberdade de expressão”, explica o diretor.

O ano de 1975

No ano de sua morte, Vladimir Herzog ocupava um cargo de grande relevância na TV Cultura. Sotilli pontua: “Vlado trabalhou em grandes veículos da imprensa, como o jornal O Estado de São Paulo, a BBC de Londres e a Revista Visão”. Na época, houve muita comoção social, principalmente entre os profissionais da área, que buscavam desmentir a farsa da ideia de suicídio criada pelos militares.

Sotilli enfatiza: “Quero destacar especialmente a atuação corajosa do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, com a participação de Audálio Dantas, Juca Kfouri, Fernando Pacheco Jordão, que lutaram muito para que a versão do suicídio forjada pelos militares não prevalecesse”.

Contudo, para o diretor do Instituto, a principal responsável por desmentir a versão do atentado contra a própria vida foi Clarice Herzog, que há mais de quatro décadas luta por “justiça e pela responsabilização do Estado brasileiro pela tortura e assassinato de seu marido”.

Saiba mais: Instituto lança acervo virtual de Vladimir Herzog como "intérprete de seu tempo"

“Início do fim da ditadura”

No dia 31 de outubro de 1975, seis dias após o ocorrido, um ato ecumênico foi realizado na Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Sotilli pontua: “Em plena ditadura militar, milhares de cidadãos se reuniram, entre 8 e 10 mil pessoas, para prestar suas homenagens ao Vlado e protestar pacificamente contra o regime. Foi o primeiro ato público dessa envergadura, com esse tamanho, a confrontar a ditadura militar. ” [...] por isso, nós costumamos dizer que esse ato inaugurou o início do fim da ditadura”.

A visão de outro jornalista

O jornalista e professor Cid de Queiroz Benjamin não conheceu Vlado, porém sabe que todos os que conviveram com ele tem muito respeito e dão muito valor ao profissional que Vladimir Herzog foi. “Com seu assassinato ele se tornou um símbolo da resistência contra a ditadura”, afirma.

Benjamin comenta que tem orgulho de ter integrado uma geração que lutou de verdade por mudanças sociais. Ele, que fez parte do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR8), fala que a generosidade e desprendimento entraram para a história.

O jornalista conclui: “A ditadura cometeu crimes contra o povo. Os jornalistas foram vítimas não só da censura e da repressão a seu trabalho profissional, mas muitos deles conheceram também a prisão, a tortura e a morte”.

Relação História x Jornalismo

O historiador Leonardo Botega considera que tanto o jornalismo quanto a história pertencem a um campo importante do conhecimento humano: “as humanidades”. Indagado sobre a relação entre os dois campos de conhecimento, Botega afirmou que o jornalismo pode se tornar “limitado pelas forças do jogo do poder, político e econômico, sobretudo, pelas suas relações comerciais”. Já o outro campo, sob o olhar do historiador, não tem o direito da “ocultação das fontes”, mas se torna menos sujeita ao caráter comercial, de publicidade.

“Me parece que as pressões do mercado e da aceleração do tempo informacional têm sido muito mais perversa com o jornalismo do que com a história”, avalia.

Para Botega, Herzog representa um caráter fortificador no processo de oposição à ditadura civil-militar. “O assassinato de Vlado ocorre em um momento em que a população começava a dar sinais de que a ditadura não era tão popular como as propagandas oficiais tentavam demonstrar”.

Segundo ele, que nasceu dois anos após a morte de Herzog, não vivenciou o período, em suas palavras, “mais duro” da ditadura. Porém, sua família tinha uma considerável participação política, com pais que participaram, inclusive, do enterro do ex-presidente João Goulart em 1976, “onde os gritos de Anistia marcaram fortemente os Ritos Fúnebres”.

Botega também comenta que tinha seis anos quando houve os movimentos pelas Diretas Já e que se recorda da grande mobilização e alegria das pessoas na eleição, mesmo que indireta, de Tancredo Neves, assim como da comoção popular que marcou o enterro do mesmo.

E conclui: “minha memória de “não-historiador” é do tempo da Redemocratização, tempos de muita esperança, onde defender a ditadura era defender uma aberração. Basta ver o desempenho medíocre que os candidatos ligados ao governo ditatorial tiveram em 1989”.

(Fonte: BdF Rio Grande do Sul). 

 


 

 
 

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