18/11/2020 às 06h03min - Atualizada em 18/11/2020 às 06h03min

Resisti aos favores sórdidos do pai de atleta!

Contei toda a história e Paulo Maia gargalhou e me deu boa dica

- Perter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Baixinho, barriga saliente, cordão fininho com crucifixo no pescoço, camiseta regata, o meu quase algoz dava impressão de não matar nem reles pardal. Foto: Ilustração

Já tinha, pelo menos, dez anos de A Gazela. Era razoavelmente conhecido no universo do esporte amador.


 Mas, sinceramente, me sentia cansado. Além dos baixos rendimentos, o assédio que sofria de parte da comunidade esportiva era feroz.


 Há pessoas que, se der mínima brecha, te devora.


 Para se ter ideia, mãe de atleta “acampava” na portaria do jornal visando a pedir matéria sobre filha, talento desperdiçado do atletismo por falta de patrocínio e de juízo da genitora.


 Triatleta quarentão colocava a jaqueta camuflada, estilo Exército, com 20 medalhas fixadas e vivia no jornal forçando a barra.


 Falo de casos folclóricos, quase simbólicos. Mas, a pressão é muito maior. Quando vem de áreas do jornal de fora da redação, então, compadre, sai de baixo! 

 

Sem contar as mudanças drásticas implementadas pelos gênios da globalização que fizeram, dentre outras coisas, repórter fotográfico virar também motorista.

Ao sair do jornal comprovei que repórter é meio técnico de futebol no aspecto de que, geralmente, quem gosta de seu trabalho é quem é escalado titular. 

  

Quero dizer: quem não é destaque, se possível com foto nas páginas, parceiro, no máximo te tolera. 

 

Fora definitivamente da redação, fique esperto: repórter não existe. Você percebe que vivia em mundo irreal, repleto de bajulação.

 Ainda bem que optei por sair na hora que perdi o tesão. Como inteligente boxer, jogo sempre a toalha quando não suporto mais as porradas. Neste aspecto evito o pré-coma.  

 

Pois bem, fiz matéria com garoto talentoso que havia se destacado em evento nacional. Foi pauta sugerida por abnegado do esporte, esta figura desaparecida com o tempo.

A matéria ficou mais ou menos, mas mereceu destaque. A partir desta primeira exposição, o garoto participou de noticiários de televisão e teve até espaço em revista esportiva que registrou exatas três edições.


 Um mês depois, venceu evento interestadual, com participações do Espírito Santo, Rio, Brasília, Bahia e Goiás. De plantão, fiz matéria no domingão ensolarado.


 Novamente o jovem atleta teve generosa divulgação. Fiquei feliz, ainda mais porque ele morava em região de alto índice de criminalidade, e, se solidificava, em todos os aspectos, na inclusão social.


 Na segunda-feira, o pai dele me telefonou. “Seu Peter, queria agradecer a força que o senhor tem dado ao meu garoto. Serei grato eternamente. Pode me pedir qualquer coisa. Faço o que o senhor quiser”, disse, me causando estranheza.


 Fingi que não entendi. Pensei: “Este caboclo bebeu umas canas”.


 Mas na minha cabeça as palavras “martelaram” fortes.


O atleta fechou, para os padrões locais, razoáveis contratos e o pai me ligou agradecendo, encerrando a conversa com a mesma ladainha, solícito que nem puta endividada.


 Pensei em tudo o que as entrelinhas poderiam me dizer, mas não cheguei à conclusão alguma. Liguei, então, para o desportista que me indicou matéria com o garoto. E ele me disse, rindo, meio sem graça, que o senhor era especialista em fazer gente partir desta para melhor.


 Pensei: “Logo o filho deste traste veio brilhar, quando cismei de ser repórter de esportes. Estou ferrado”.


 Decidi trata-lo secamente e ele deu um tempo nas ligações.


 No ano seguinte, o garoto parou de obter grandes resultados. E, obviamente, desapareceu da mídia. O pai voltou a me telefonar, com papinho furado, mas que me fazia tremer os ossos.


 Reclamava, sobretudo, da falta de espaço do filho nos jornais e de gente da imprensa que, no momento difícil, havia “desaparecido”.


 Meu cagaço aumentou um bocado. Resolvi me precaver. Então, esperei chegar na redação um dos ícones do Jornalismo capixaba, muito experiente na área policial, para pedir ajuda.


Contei toda a história e Paulo Maia gargalhou (segurando copo mínimo de plástico de café) e me deu boa dica.


 Então, quando o pai do atleta me ligou só lhe disse. “O jornal tem gravadas todas as nossas conversas desde que o garoto começou a brilhar. Se precisar estamos à disposição”. 

 

Lógico que menti descaradamente. Ele se despediu, sem graça. A partir daquele dia não ouvi mais nada do outro lado. O que já foi grande conquista.

 Fiquei mais cinco anos em A Gazeta. O garoto desapareceu dos meios esportivos locais. Foi defender clube em outro centro.  

 

Sobre o “matador”, penso, talvez pretensiosamente, que, de alguma forma, o ajudei, com a divulgação possível naqueles tempos, a montar portfólio e enviar o filho para equipe de outro Estado, na qual brilhou de forma moderada, mas conseguiu estudar e se formar em curso superior.

 Mas, o melhor mesmo foi ter salvado minha pele. Imagine se ele cisma de me meter cinco azeitonas na testa por causa da pouca divulgação do garoto?


 Anos depois, cobrindo para a Pauta Livre, nossa empresa de assessoria de imprensa, a primeira Meia Maratona Volta da Ilha de Vitória, avistei o atleta de longe.


 Minutos depois senti alguém tocar meu ombro. Era ele. “Peter, quero te apresentar meu pai”.


 Baixinho, barriga saliente, cordão fininho com crucifixo no pescoço, camiseta regata, o meu quase algoz dava impressão de não matar nem reles pardal.


 Apertei a sua mão, ele sorriu solícito. E fomos cada um para o seu canto. Como deveria mesmo ser. Concorda? 

  
 


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