22/11/2020 às 09h03min - Atualizada em 22/11/2020 às 09h03min

Consciência preta

Mais que palavras e datas, consciência de si e do outro

- Everaldo Barreto é professor de Filosofia
Filosofia Na Veia
Mestre João Pequeno: a Capoeira Angola como instrumento de resistência, contra uma sociedade racista. Foto: Reprodução Odilon Ventania
Desde 2003 o Brasil “comemora” em 20 de novembro o Dia Nacional da Consciência Negra instituído pela Lei 10.639 cujo objetivo principal é de inclusão da temática História e Cultura Afro Brasileira no currículo escolar.

O estabelecimento do 20 de novembro como o dia Nacional da Consciência Negra aparece lá no artigo 79-B da lei. Em março de 2008 a Lei 11.645 inclui também a cultura indígena, mas hoje, pela data, me aterei à consciência negra.

Na reflexão de hoje tratarei da controvérsia, comum em nosso país, de fazermos muitas leis sem a preocupação de seu cumprimento, o que acaba “construindo uma bela vitrine para uma loja de sucatas”.

Na prática a inclusão da temática, objeto principal da lei, termina resumindo-se àcelebraçãodo “dia da consciência negra”,para a população em geral. Quanto ao povo objeto da lei, os negros, a consciência éda luta, não por um dia, mas por um “seu lugar”em nosso país.

É claro que o efeito da lei seria muito maior se ela estivesse sendo atendida pela expectativa do legislador, ou seja, depois do contato com a história e cultura afro brasileira os educandos pretosteriam maior consciência da importância de seus ancestrais na construção do país e com isso um fortalecimento de suas autoestimas, enquanto nos “brancos”produziria o cultivodo respeito e da admiração pela dedicação daqueles povos nesta construção, bem como suas presenças em nossa cultura, além de, principalmente, adquirirem a consciência devedora pela escravização e expropriação daquele povo.

Infelizmente a construção cultural eurocêntrica foi muito mais eficaz, vindo de um explorador/dominador, acabou formando um “falso ethos” no povo brasileiro, que embora miscigenado por sua própria construção étnica tem dificuldade de apreensão da chamada “consciência de si”.

Podemos concluir que isto se deu a partir da introjeção forçada dos modelos de consciência euro centrada definidora do belo, do bom, do justo e do que é próprio para todos.

Em seus 17 anos, a lei 10.639 se tivesse sido aplicada, teria formado cidadãos esclarecidos o suficiente para romper com o racismo estrutural de nossa sociedade e produzir uma sociedade mais plural e colorida em suas instituições como o parlamento, nas carreiras mais promissoras do setor público e privado, na ocupação das chamadas áreas nobres das cidades, etc.

Na Filosofia a situação é ainda pior pois ensina-se que ela tem data e local de nascimento, naturalmente europeia. É como se a elaboração do pensamento, nunca tivesse existido fora da Grécia.

Embora algumas poucas e localizadas atitudes já apareçam nas pós-graduações, a grade continua a mesma, os livros didáticos e os exames balizadores como o ENEM também continuam voltados exclusivamente ao euro centrismo.

Alterar o olhar da sociedade como um todo para o povo preto passa fundamentalmente pela conscientização e empoderamento desse povo que podem ser construídos pelo contato com suas histórias e culturas, mas acima de tudo da educação da sociedade para o conhecimento da história desses povos, bem como a sua própria história com a responsabilização pelo passivo deixado por seus ancestrais na dominação e exploração do povo preto.

Por mais cores para o ser no mundo, sem a covardia do preconceito ardilosamente construído para perpetuar a dominação!

“O racismo é, historicamente, um modo de organizar povos dominados” - Muniz Sodré
 
 

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