02/12/2020 às 14h28min - Atualizada em 02/12/2020 às 14h28min

Cervejeiro, esquivei-me, duas vezes, das cachacinhas do Friaça em Porciúncula (RJ)

Friaça, um dos poucos que se salvaram da tragédia da Copa de 1950

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Nunca vi anfitrião tão cordial e educado. Friaça soube diferenciar muito bem o que é a vida e uma competição de futebol. Foto: Gildo Loyola
Minha vida de jornalista esportivo é privilegiada. Estive perto de pessoas que fazem parte da história de variadas modalidades. Alguns de forma contundente. 

 Uma delas me chamou a atenção pelo gosto pela cachaça, esta iguaria maravilhosa que começou a ser desenvolvida no Brasil, dizem, quando os portugueses trouxeram a cana de açúcar e as técnicas de destilação. 

Falo do Friaça, um dos poucos que se salvaram da tragédia da Copa de 1950, ao marcar o gol do Brasil na final contra o Uruguai, no  2 a 1 para a Celeste. 

Tive dois encontros com ele. E, nas duas, o atacante voraz das décadas de 40 e 50, não abriu mão de generosos goles durante as entrevistas. Curtindo, merecidamente, a vida. 

 Albino Friaça Cardoso, carioca, nasceu em outubro de 1924. Começou no Vasco, onde anotou nada menos do que 114 gols em 162 jogos.  

Depois atuou no São Paulo, Ponte Preta, Guarani e novamente no Vasco. Quando defendia o São Paulo foi convocado para a seleção brasileira de 1950, pela qual marcou somente um gol, exatamente na fatídica final. 

 Os encontros foram na sua cidade natal: Porciúncula. Pertinho dali, em Varre-Sai, nasceu Baden Powell, um dos maiores violonistas da história. Friaça morreu, aos 84 anos, em 2009, em Itaperuna. 

O primeiro encontro, ao lado do amigo e repórter fotográfico Chico Guedes, se deu na ocasião dos 50 anos do Maracanã e da tragédia da final da Copa de 1950, em 2000. 

 Friaça nos revelou bastidores da derrota inesquecível. 

 "O Brasil atuava com um time em São Paulo e com outro no Rio, por determinação dos políticos influentes". 

 "A concentração era uma bagunça, entrava gente importante a todo tempo. Vivíamos sendo expostos. Além disso, após golearmos a Espanha, ninguém acreditava que poderíamos perder para o Uruguai".  

 "Nós sabíamos que seria difícil, mas todo o povo brasileiro achava que venceríamos fácil e isso acabou nos contagiando". 

 "Foi uma tarde estranha. Se os enfrentássemos mais dez vezes, o Brasil venceria as dez. Éramos realmente melhores". 

Foram, mais ou menos, estas as recordações do Friaça daquela final. 

 O ex-atacante tem seu nome no estádio de Porciúncula. Chico o fotografou lá. Voltamos no mesmo dia para Vitória. Jornalismo raiz era assim. Não tinha essa de descansar em hotel. 

 Enfim, Friaça tomou umas três cachacinhas durante a entrevista. Eu estava com ressaca terrível de cerveja do dia anterior, Friaça não notou.  

 Chico fez de conta que não percebeu. Então está tudo certo: no domingo "aquela" primeira página linda. 

 SEGUNDO ENCONTRO 

 Nosso segundo encontro foi antes da Copa de 2002. Fiz projeto meio maluco para A Gazeta denominado "Copa Pé na Estrada".  

 Vinha da cobertura da Paralimpíada de Sydney e estava a todo vapor.  

 O amigo e parceiro Gildo Loyola foi escalado para registrar nossa semana de reportagens. Depois de série de pautas que elaborei, acabamos novamente em Porciúncula. Chegamos sem avisar, mas o Friaça nos recebeu super bem. 

 Novamente, sem abrir mão das cachacinhas, nos revelou que vários colegas de profissão passaram dias em sua casa, nas férias do futebol, e casaram-se com moças da região, consideradas as mais belas do Rio. 

Disse também a razão maior do seu sucesso: os chutes potentes, certeiros e rápidos. "O atacante, além de chutar forte, tem que ser rápido. Pensar antes do zagueiro". 

 Durante nossa visita nos mostrou relíquias do futebol. Bolas, taças, troféus, jaquetas, medalhas.  

 Gildo o fotografou segurando a jaqueta da seleção, foi mais uma bela primeira página. Ele tomou suas três cachacinhas, divertindo-se, enormemente, das nem sempre tão doces lembranças. 

Friaça era dono da maior loja de material de construção da cidade. Não trazia mágoa do futebol. Definitivamente não sofreu perseguição acintosa após a final da Copa de 1950, como o goleiro Barbosa e o lateral Bigode, a quem encontrei, amargo, em São Mateus.  

 Nunca vi anfitrião tão cordial e educado. Friaça soube diferenciar muito bem o que é a vida e uma competição de futebol. Algo raro no Brasil dentre os boleiros.

​Sobre a seleção brasileira na Copa de 2002, ele foi rápido na análise. "Toda seleção campeã tem que ter craques que decidem o jogo. O Brasil tem quatro: Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo, só perde se o técnico atrapalhar", profetizou.

Como o Felipão não atrapalhou, não deu outra. 

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Quais são os piores motoristas de Colatina

46.4%
23.4%
30.2%