22/12/2020 às 16h09min - Atualizada em 22/12/2020 às 16h09min

​Da caverna para a ataraxia

A todo momento precisamos avaliar e reavaliar nossa caminhada para evitar as tutelas

- Everaldo Barreto Moura é Pensador e professor de Filosofia
Filosofia na Veia
A construção da felicidade é individual, diria que se trata da busca do “em si” no sujeito. Foto: ilustração

A construção da felicidade, não enquanto ponto de chegada vez que ela não é objetiva, mas como forma de vida livre, autônoma e prazerosa, fica cada vez mais difícil numa sociedade que molda nossa forma de viver, de nos relacionar e até os desejos, num frenesi de consumo muito mais necessário para o próprio funcionamento da máquina quedesejado.

Na filosofia encontramos um conceito que me parece fundamental para a libertação e construção desse caminho, a ATARAXIA, digamos que um estado da “alma”, pode ser definido como a imperturbabilidade do ser, quando os valores do mundo, aqueles de fora para dentro, não têm o peso decisivo no caminhar do sujeito.

Não estou falando de coisas simples, mas de reflexões profundas ligadas às nossas buscas.

Na maioria das vezes esses valores construídos na sociedade estão muito mais voltados à vida coletiva, focando inclusive em sua prioridade sobre a individual, quando se faz necessário que o sujeito se veja pertencente a um conjunto e que dê sua contribuição à este. No fundo a sociedade não é mais que uma máquina de moer subjetividades com o objetivo de construir uma massa mais homogenia e o maisfuncional possível.

Platão, que podemos chamar de nosso pai espiritual, criou uma alegoria, O mito da caverna, que continua significativa apesar dos quase 2.500 anos.

Nela as pessoas viviam iludidas de que as sombras eram realidade e não conseguiam aceitar mudar essa concepção, mesmo tendo a informação de que estavam iludidas. Leitura interessante que se encontra no Livro VII de A República.

Na atualidade toda nossa, digamos “opção de condição ou condição de opção de vida”, é desenhada em acordos onde nem sempre são considerados os interesses das massas, embora que: mesmo que o fossem, ainda teríamos que dar mais importância às subjetividades, desconectando-as de modelos massificados pela “máquina”.

A construção da felicidade é individual, diria que se trata da busca do “em si” no sujeito. Eterna querela, do ser consigo mesmo, desde sua expressão subliminar nos contos homéricos, passando por Sócrates, Aristóteles e o cristianismo medieval até ser esmiuçada de forma mais moderna e contemporânea a partir do iluminismo e do existencialismo.

Não podemos nos ver obrigados a entrar na fila dessa moedora, contudo, o despertar da autenticidade do ser, exige um nível de percepção e, na maioria das vezes, o enfrentamento à opressão, até mesmo das massas, para o seu exercício livre.

A liberdade não é uma escolha, mas uma condenação segundo J. P. Sartre. Exerce-la de forma autêntica ou não, também é escolha e não há justificativa para não sermos responsáveis pelo caminhar próprio, mesmo com toda a opressão social, sugestão midiática ou qualquer tentativa externa de tutela.

Não existe uma essência definida para o ser, ele a constrói no exercício de sua livre vontade, cultivando valores próprios e resistindo às modelações e tutelas externas.
 
 
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