30/12/2020 às 05h33min - Atualizada em 30/12/2020 às 05h33min

​Carlinhos e Flávio Gabiru: a dinastia que encheu de glórias o esporte capixaba

Carlinhos e Flávio Gabiru: para sempre na história.

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Carlinhos recebe faixa de campeão estadual pelo Rio Branco.Tempos maravilhosos do futebol capixaba. Fotos: Álbum de Família. Reprodução Peter Falcão.

Eu vi Flávio Gabiru jogar. Então deito tranquilo, deleitado pelos gols espetaculares, de precisão cirúrgica, velocidade, técnica refinada e rapidez de raciocínio, que vivem em minha memória.  

Não tenho dúvidas: ao lembrar do “Gabira”, percebo que vivi, intensamente, tempos maravilhosos do futsal capixaba. Mas preciso, com traje de gala, beijar-lhes os pés.  

Penso que, desta forma, beijarei também os sagrados pés do seu pai, Carlinhos Gabiru, um dos mais implacáveis atacantes da história do futebol capixaba.  
Ele é, nada menos, do que o segundo maior artilheiro do Rio Branco, de todos os tempos, com 136 gols, atrás somente de Alcy Simões, que anotou 213. 

Carlinhos Gabiru consta entre os 23 atletas que mais atuaram pelo Rio Branco. Vestiu o Manto 178 vezes. E o dignificou. Mais do que isso: o glorificou. Não somente estufando, à mancheia, redes, mas colaborando, nos bastidores, imensamente. 

Sinto necessidade de conectar as duas histórias. Gabiru, o filho, é imenso. Sem comparações, desnecessárias, com o pai. Mas preciso dizer que ele esteve em uma das maiores conquistas do futsal capixaba, o de campeão do Brasileiro juvenil de seleções em Orós, no Ceará, em 1982. 

E que ganhou tudo no Estado.

E também que brilhou, intensamente, lá fora, desbravando fronteiras, intrépido, audaz, voluptuoso. Vivíamos na telinha o acompanhando, brilhando aos sábados, toda manhã. 

Pois bem: em suas épocas, eles ouviram deliciosos sons de elogios nas conquistas infinitas. Avistaram oásis bem próximos do deserto. Tiveram ouros ilusórios, palpáveis em suas mãos, mas, jamais se acomodaram e perderam a letalidade diante dos gols. Para nosso deleite, décadas e décadas depois. Carlinhos e Flávio Gabiru: para sempre na história.  

Precisamos muito resgatar seus feitos. E agradecer, humildes, tantas glórias. Abaixo ampla entrevista com Flávio Gabiru. Deleite-se. Orgulhe-se. E NÃO se apaixone, se for capaz.  
 
Entrevista: 
 
*Flávio Gabiru, segundo o livro do jornalista e historiador Oscar Gomes Filho – Rio Branco Atlético Clube, Histórias e Conquistas – o seu pai foi o segundo maior artilheiro do clube em todos os tempos com 136 gols. Gostaria que você nos falasse sobre ele. 

- Falar do meu pai, Carlinhos Gabiru, é muito gratificante. Ele foi sempre uma pessoa caridosa, generosa, honesta, trabalhadora, e um grande jogador de futebol. Segundo maior artilheiro do Rio Branco, isso consta no livro do clube e no Museu do Futebol em São Paulo. 
*Ele só não marcou mais do que Alcy Simões, que fez 213... 

- Uma vez estava visitando esse museu, e fiquei muito orgulhoso, quando vi, no espaço que falava do Rio Branco, o nome dele. Foi também um dos que mais atuaram pelo clube.  

*Foram 178 jogos. Consta entre os 25 que mais vestiram o Manto... 

- Os jogadores e dirigentes mais antigos contam que quando ele jogava, às vezes, chegava na hora do jogo (ele viajava muito, estava montando a empresa dele, na época o esporte era mais amador), o técnico nem esperava, e ele jogava.  

*Ele era muito generoso, o Oscar Gomes Filho me falava sempre... 

- Os “bichos” que ganhava eram distribuídos para os outros jogadores, principalmente os mais necessitados. Tínhamos várias reportagens da época, dizendo que clubes como o Fluminense, Cruzeiro, Atlético e diversos outros grandes clubes brasileiros fizeram propostas para levá-lo, mas o futebol na época era muito incerto.  

*Conte-nos mais... 

- Uma vez o Fluminense veio aqui no Estado (o time tinha a zaga, Pinheiro era um deles, e o goleiro da Seleção Brasileira, Castilho), jogar com o Rio Branco. O jogo acabou 3x3, com três gols de papai. Ele acabou com o jogo, o Fluminense fez tudo para levá-lo.  

*Ele amava o Rio Branco... 

- Depois que parou de jogar, assumiu vários cargos no Rio Branco. Diretor, vice-presidente, presidente, sempre sem remuneração. Ajudou o clube em diversos momentos. Incentivou e ajudou diversos atletas. Alguns se tornaram Médicos, Advogados, e outros profissionais qualificados. Foi um pai fantástico, sempre muito presente. Era um avô amado e idolatrado pelos netos, muito brincalhão. Ajudava várias instituições e pessoas, inclusive muitos ex-jogadores. 

*Vamos falar agora sobre você.. 

 - Comecei a jogar nas peladas de rua, no paralelepípedo, no barro, e, principalmente, na pracinha em frente de casa, no antigo Colégio do Carmo, na Cidade Alta, em Vitória. Lembro que eu era um dos mais novos da turma. Vendíamos revistas usadas e balas, para comprarmos o jogo de camisa da equipe, o Canarinho.  

*Que massa! 

- Aos 11 anos fui jogar na Escolinha do Seu Orlando, o famoso Baianinho, do Álvares Cabral, que era aos domingos. Levantava às 5 horas para me arrumar, e pegar um táxi, que meu papai contratou para me levar todo domingo. A ansiedade era grande. 

*E aí? 

- No ano seguinte, fui para o Saldanha, onde tive a felicidade de ser tri campeão infantil. No infanto juvenil me tornei bi campeão, e, curiosamente, já jogava pelo juvenil, e fiz ainda duas partidas pelo adulto. 

*Bem precoce! 

Cheguei ao tricampeonato também pelo juvenil. No último ano de juvenil, me transferi para o Álvares Cabral, onde ganhamos vários títulos na categoria principal. No adulto joguei também pelo Ítalo, Saldanha e Grêmio Coqueirense, conquistando diversos títulos com meus companheiros. 

*Não podemos deixar de lembrar do título do Campeonato Brasileiro Juvenil de Seleções, disputado em Orós, no Ceará, em 1982... 

- Foi eletrizante. A final vencemos o duríssimo Paraná por 4 a 3, um jogão. Na semifinal ganhamos do Rio de Janeiro, partida também difícil demais. Foi 5 a 3 e a base do Rio era do Bradesco, time profissional. Este jogo mobilizou os moradores da cidade. Até aposta teve.  

*Vocês trabalharam duro... 

- Nos preparamos muito. Tivemos foco total. O grupo era disciplinado, unido. Depois do título, o futsal, que já era muito praticado, passou a ser mais ainda. Tivemos sequência de ótimas participações em Brasileiros. O Saldanha, inclusive, foi campeão da Taça Brasil Juvenil de Clubes, no Rio Grande do Sul, em 1991. 

*Nos fale mais, por gentileza... 

- Para mim, Nilo Etienne Duarte sempre será o maior nome do futsal capixaba de todos os tempos. Sem ele, nada teria acontecido. Deu imensa contribuição ao esporte. Sempre muito apaixonado pelo o que fazia. Pela causa do futsal. 


*E o Bradesco? 
Tive oportunidade também de jogar no Bradesco, considerado, por muitos, o melhor time do mundo na época. Tive grandes companheiros nas quadras, como Cadinho, Paolo, Lucas, índio, Adail e vários outros. No Bradesco joguei com grandes craques como Raul, que era sensacional; Carlos Alberto, Sergio Sapo, entre outros.  

*O que pode nos falar do dia a dia no Rio? 

- Nessa época, morei com meu “amigo/irmão” Cadinho, meu grande companheiro. Com ele não tinha partida perdida. Morávamos no apartamento da avó dele, Dona Silvia, em Copacabana. Treinávamos muito no Bradesco, e eles tinham um carinho muito grande comigo. Grandes recordações.  

*O time era um dos melhores do país. Não é mesmo? 

- No Bradesco ganhamos diversos títulos, inclusive terminei como artilheiro da equipe em uma excursão à Europa. 

*Você voltou a atuar no Estado no início da década de 1990. Lembrou-me bem... 

- Infelizmente (ou felizmente) tive que voltar, estava terminando o curso de Engenharia Civil na UFES, e não consegui transferência para uma Faculdade do Rio. Sou formado em Engenharia Civil pela UFES, trabalhei como Engenheiro durante quase 10 anos. Em 1995, quando estava parando de jogar, fiz vestibular para Educação Física, e fiz o curso também na UFES.  

*Interessante, né? 

- Nesse mesmo ano, comecei a trabalhar no Darwin, convidado pelos meus amigos Nelsinho e Paulo Gaudio, onde sou muito Feliz, e trabalho até hoje.  

*Você é casado há muito tempo, não é mesmo? 

- Sou casado há 32 anos com a Katia Lessa, sem contar seis anos e meio de namoro e noivado. Tenho dois filhos maravilhosos, Flavio, de 26 anos e Amanda, de 22. Ele é Engenheiro e Professor, e ela cursa Medicina. Minha família é meu bem maior. Sou muito grato a Deus, por tanta coisa boa em minha Vida.

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