08/02/2021 às 14h40min - Atualizada em 08/02/2021 às 14h40min

O protesto contra decisão judicial que proibiu o beijo na boca, durante a ditadura

Mentalidade atrasada gerou portaria em fevereiro de 1980 no interior de SP

Rede Globo
Casal se beija durante a 'Noite do beijo', em Sorocaba, em fevereiro de 1980.Foto: Acervo O Globo

"Beijos há que são libidinosos e, portanto, obscenos, como o beijo no pescoço, nas partes pudendas e etc., e como o beijo cinematográfico, em que mucosas labiais se unem numa insofismáel expansão de sensualidade".

Com essas palavras, o juiz substiituto Manoel Morales justificava uma portaria, publicada em fevereiro de 1980, na qual ele simplesmente proibia os casais de se beijar na boca em locais públicos do município de Sorocaba, no interior de São Paulo.

O país estava nos anos finais da ditadura militar. Um período em que a população já começava a reconquistar liberdades individuais que haviam sido suspensas durante os anos de chumbo. Portanto, aquela decisão autoritária e sem base nem mesmo na Constituição de 1967 (promulgada pelos generais), provocou reação imediata.

O movimento secundarista, que havia recuperado força com a flexibilização política, começou a organizar um protesto no centro de Sorocaba. Batizada de "Noite do beijo", a manifestação contaria com apresentações musicaise teatrais de artistas amadores, além de muitos cartazes e, claro, muitos beijos na boca. Contudo, o ato ocorrido no dia 8 de fevereiro de 1981, há exatos 40 anos, terminou em um grande confronto com a polícia, muita correria e quebra-quebra.

- Os organizadores acharam que haveria algo em torno de 30 pessoas, mas apareceram milhares. Aquilo era inédito na história da cidade - conta o hoje professor Henrique Carneiro, da Faculdade de História da Universidade de São Paulo (USP), que participou da manifestação. - Para conter a manifestação, vieram policiais da tropa de choque até de cidades vizinhas. Houve repressão, e as pessoas reagiram, dando início a enfrentamento e correria. O tumulto só foi dispersado de madrugada. 

 

Na sua portaria, o juiz Morales determinava que quem desrespeitasse a proibição deveria ser processado criminalmente. Até policiais criticaram, afirmando que enfraqueceria esforços para coibir crimes de verdade. No ato de 8 de fevereiro, as pessoas exibiam cartazes com dizeres como "Beijem-se. Sejam criminosos" e gritavam palavras de ordem: "Mais beijo, mais pão, abaixo a repressão". 

- O episódio mostrou o esgotamento popular com a repressão. Quando se fala em ditadura militar, muita gente pensa em fechamento do Congresso, de sindicatos... Mas o pior da ditadura é a relação com o guarda da esquina - analisa Carneiro, que em 1981 era presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes). - Naquele caso, o autoritarismo chegou ao ponto de proibir beijos em locais públicos. Era a expressão de uma ditadura que tentava controlar a vida cotidiana.

Até por volta das 20h, havia poucas pessoas reunidas na Praça Coronel Fernando Prestes, no centro de Sorocaba. Jovens circulavam com esparadrapos colados na boca, enquanto grupos cercavam casais gritando "Beija! Beija!". Quando verficaram que a aparelhagem de som não estava funcionando, as apresentações artísticas foram canceladas, e os organizadores optaram por começar uma passeata. 

 

Enquanto os manifestantes gritavam críticas contra o então governador paulista, Paulo Maluf, e o então presidente da República, João Figueiredo, cada vez mais pessoas aderia à caminhada, que virou um grande protesto com cerca de 5 mil pessoas. De acordo com a edição do GLOBO do dia 9 de fevereiro, a certa altura, um automóvel Chevette investiou contra a multidão, atropelando algumas pessoas.

Os ânimos começaram a ficar exaltados. Quando a passeata chegou ao Largo do Rosário, os organizadores tentaram encerrar o ato, mas muita gente voltou à praça, que foi tomada por milhares de manifestantes. Ainda segundo o jornal da época, uma viatura foi atingida por uma pedra em seu para-brisa, e os policiais militares revidaram espancando algumas pessoas. A multidão, por sua vez, partur para cima do efetivo de soldados, que havia recebido um reforço de 60 homens. Teve início um tumulto genaralizado, que só acabou por volta de 1h da madrugada.

Em 2009, o ex-líder secundarista Carlos Batistella, um dos principais organizadores do protesto, lançou o livro "Noite do Beijo", com o seu relato sobre a histórica manifestação. Em 2016, estreou o documentário "Noite do beijo - Ontem e hoje", realizado pelo professor Bruno Lottelli, do curso de Comunicação do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP). Financiado pela Lei de Incentivo e Cultura de Sorocaba, o filme foi exibido para cerca de mil pessoas em Sorocaba, entre elas estudantes de escolas públicas da região.

- É um registro político-afetivo dos movimentos de juventude de Sorocaba, a partir da mítica “Noite do Beijo”. A importância é investigar as relações corpo e espaço público e transformações sociais - comenta Lottelli. - A importância do resgate é no sentido de construção social, mostrar forças e apontar caminhos coletivos de forma saudável.


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