26/02/2021 às 08h08min - Atualizada em 26/02/2021 às 08h08min

Quando todos educam, ninguém educa

É preciso respeitar o educador em seu ofício, como respeitamos todos os outros profissionais.

- Everaldo Barreto Moura é Pensador e professor de Filosofia
Filosofia na Veia
Assim são criadas as bolhas educacionais, voltadas a formar o cidadão, não para o Estado, mas para a sociedade que interessa a seus pais. Foto: Ilustrativa

Durante muito tempo a terra do futebol tinha duzentos milhões de técnicos, hoje esse retrato está mais adequado à educação.

Um professor se forma numa graduação específica para ensinar chamada licenciatura, pratica pelo menos três semestres em estágio supervisionado antes de assumir uma sala de aula.

Enquanto isso o senso comum de nossa sociedade vê a educação como umatarefa de todos. Parece muito bonito, mas na prática transfere uma função da maior seriedadepara os grandes sábios populares, líderes religiosos e entusiastas dos moralismos mais efêmeros, diplomados no mundo, segundo suas próprias visões.

Em nosso país vivemos tempos estranhos, está colocada uma dicotomia obrigatória para toda a população. Às vezes aparece como direita e esquerda, a favor do governo ou da vacina, pelo Brasil e contra o Brasil, de Deus ou do diabo e por aí vai.

Frente ao momento político que vivemos,essa dicotomia ideológica compulsória tem levado às maiores insanidades nas relações, não só das pessoas, mas também das instituições, como temos assistido frequentemente.

A categoria de professorestem sido confrontada com esses “educadores do senso comum” numa tentativa de impor com base em “seus conceitos” os conteúdos e até mesmo a didática desses profissionais.

Vale ressaltar que em seu próprio ambiente professoras e professores estão submetido a um extenso sistema de controle de suas atividades, que vêm desde o governo federal, por meio do MEC, do governo estadual nas secretarias de educação e de suas superintendências, direção da escola em que trabalha e coordenação pedagógica.

Ao iniciar suas funções em sala precisa apresentar seu plano de ensino e é supervisionado diariamente nesse sistema.

Apesar de toda essa estrutura organizacional, inclusive dispendiosa e paga pela população por meio dos impostos para garantir a qualidade da educação e o desenvolvimento do ensino público, muitas pessoas se arvoram a “especialistas superiores” e desclassificam completamente a estrutura pública seja no investimento da educação privada, onde o investidor voltado aos lucros, procura atender as visões dos “pais especialistas em educação”, que para ele nada mais representa que seu cliente (aquele que sempre tem razão).

Assim são criadas as bolhas educacionais, voltadas a formar o cidadão, não para o Estado, mas para a sociedade que interessa a seus pais, no geral uma casta superior na sociedade dos comuns.

Por outro lado, existem os pais tornados especialistas pelas redes sociais e suas Fake News, pelos discursos de políticos, líderes religiosos ou (des) formadores de opinião cujos interesses estão muito além de sua compreensão, mas que o discurso o sensibiliza por apelos emocionais, falsas moralidades e utilitarismo social.

AContudo, não tendo recursos para transferir seus filhos para a “bolha”, passam a interferir na educação pública de forma desastrosa,alardeando suas opiniões (Doxa) como conhecimento que provocam um enorme estrago em todo o sistema, arrastando o rebanho e tornando réus os profissionais da educação.

Naturalmente a reflexão deste tema é muito mais ampla e depende de um resgate histórico da visão construída na sociedade sobre esse profissional, que resultou numa baixíssima valorização da função, transparecida em sua raiz nos baixos salários, e no senso comum da sociedade, na compreensão de que essa função não lhe é exclusiva, desclassificando toda sua formação para inserir todos os que se dizem especialistas, mesmo que sem nenhuma formação.
Enfim formamos educadores, médicos, advogados, etc. exatamente para podermos desenvolver nossos próprios ofícios, delegando aos outros aquilo que não temos competência, por que, parafraseando o Filósofo; somos animais políticos, não damos conta de tudo que precisamos e por isso dependemos uns dos outros.

Isso é viver em sociedade.

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