11/03/2021 às 12h34min - Atualizada em 11/03/2021 às 12h34min

Repórter de Esportes, quase virei perito criminal

Na cabeça só vinham as imagens da “ronda policial”, nada aprazíveis

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Aprendi logo o be a bá do crime. Quando, por exemplo, o balaço entra direto nos órgãos vitais, descarte, please, a hipótese de crime passional. Foto: Ilustração

 

 

 Quando ingressei em grande jornal da capital, em 1989, utilizávamos máquina de datilografar. “Batíamos”, como se dizia, matéria em três cópias, utilizando entre as laudas papel carbono. 

 

Mesmo dinossauro, adaptei-me às mudanças, principalmente à informatização da redação. 

 

Mas no início dos anos 2000, a empresa contratou gestores que, em nome da modernidade (leia-se corte de gastos), demitiram, à mancheia, repórteres fotográficos, jornalistas, revisores, redatores e editores super cascudos. Foi-se a alma do jornal. Em poucos anos, beijou-lhe a face a decadência. 

 

Não bastando, tomaram medidas até hoje pouco compreendidas. 

 

Uma delas foi dispensar mais da metade dos motoristas da redação, gratificar financeiramente o repórter fotográfico e fazê-lo dirigir o carro da equipe. 

 

Repórter de Esportes, senti a lambada na pele. É que a maioria dos atletas treina pela manhã, um pouco depois que começa a primeira, digamos, “ronda policial” do dia, do repórter fotográfico. 

 

Então, pegava o busão em Jardim Camburi, às 6 horas. Chegava na redação às 6h30 e às sete entrava no carro com o repórter fotográfico da Editoria de Polícia (habitualmente escalado para cobrir minhas pautas) visando a rodar delegacias.  

 

E não raramente, visitar “presuntos” estirados no chão em poças enormes de sangue e também presenciar corpos mutilados, principalmente em razão da briga do tráfico ou confrontos provocados pelo uso excessivo de bebida alcoólica. Feminicídio naqueles tempos, infelizmente, era “mato’. 

 

A matéria de esporte fazia, quando dava tudo certo, lá pelas 8h30. Quando tinha rebelião ou chacina, logicamente (e com toda razão) tinha que esquecer a pauta e voltar de busão para a redação ou aguardar algum motorista, “sobrevivente” das demissões, pelo menos, uma horinha. 

 

Dormir era palavra de luxo, pois, na cabeça só vinham as imagens da “ronda policial”, nada aprazíveis. 

 

Aprendi logo o be a bá do crime. Quando, por exemplo, o balaço entra direto nos órgãos vitais, descarte, please, a hipótese de crime passional.  

 

Dedo duro é executado geralmente com tiro na boca. Ladrão, na comunidade dominada pelo tráfico, toma tiro na mão ou no pé. Se for reincidente pode ter o joelho estraçalhado.  Estelionatário, na maioria das vezes, tem psicopatia. Remorso zero de sofrimento alheio e frieza absurda nas, digamos, transações comerciais. 

 

O estopim que me fez emergir daquela literal descida ao inferno, foi quando vi corpo de jovem perfurado com mais de dez tiros. Seu crime: barraqueira, brigou com a irmã, a polícia subiu o morro, atrapalhando o movimento da próspera sexta-feira. 

 

Acho que, se não tivesse pedido demissão em 13 de outubro de 2004, talvez hoje, mais de 16 anos depois, seria excelente perito criminal. Não é verdade? 

 

Gracias amigos pela atenção! 


Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Quais são os piores motoristas de Colatina

45.7%
23.9%
30.3%