02/04/2021 às 10h10min - Atualizada em 02/04/2021 às 10h10min

A educação pública deve formar indivíduos cidadãos e não servos do Estado

A discussão política tem seu papel de “fonte do poder” na democracia

- Everaldo Barreto Moura é Pensador e professor de Filosofia
Filosofia na Veia
Os estudantes e suas famílias se veem em situação de carência e sem voz nas estruturas de poder. Foto: Ilustração Web.


A empreitada do governo federal para difundir escolas militares pelo país teve um episódio em Cariacica, no final de março, que vale uma boa reflexão.

Acostumamos a conviver comuma educação pública com enormes deficiências, desde as estruturas físicas até a remuneração dos profissionais, passando por políticas equivocadas (pretensas donas da verdade) e todo um conjunto de críticas e proposições vindas de todos os setores da sociedade, com ou sem propriedade sobre o tema.

Os estudantes e suas famílias se veem em situação de carência e sem voz nas estruturas de poder, o resultado é uma educação pública que presta serviço à desigualdade social entre as classes e, não só mantém, mas amplia o abismo dessas desigualdades.

Afinal, enquanto as elites preparam seus filhos para funções de comando e de enriquecimento nas melhores escolas, o povo amarga suas dificuldades tendo na escola um complemento alimentar para seus filhos e uma educação cada vez mais “para o trabalho”, obediência e subserviência.

Conscientes dessa realidade vamos à questão da implantação da “Escola Cívico Militar” proposta ao povo de Cariacica em audiência pública virtual no último dia 31.

A proposta foi presentada e veementemente defendida pelo secretário municipal de educação numa alusão clara, antes de tudo, à deficiência da escola em questão, em sua estrutura, gestão e até aproveitamento, justificando a inserção federalcom a própria deficiência do município em manter uma qualidade melhor.

Assim todo o enredo esteve voltado para o benefício, principalmente material oferecido à comunidade caso aprove sua implantação.

Dessa forma foi dada uma “realidade aparente”, claramente vantajosa em relação a um serviço autodeclarado precário, ineficiente e incapaz de ser melhorado pelo município, o que leva a uma conclusão “fácil” de que a população só tem a ganhar com essa implantação.

Afinal como o senso comum, superficial e ingênuo, poderá reclamar ou se posicionar contra uma ação que vem “melhorar” aquilo que está e se auto propaga ruim?

A Filosofia, desde Platão, está sempre nos alertando para a ilusão das aparências. A dialética nos convida a investigar a aparência sempre conjugada a seu sentido, para chegarmos ao “ser da coisa” que estará sempre mascarado pela aparência isolada. É fundamental descortinar o sentido oculto, a intensão oculta a que serve aquela realidade que se mostra.

Uma outra perspectiva de reflexão deve ser abordada aqui com relação à obediência. A que ela serve?
À emancipação e ao protagonismo ou à subserviência e conformismo? Vale lembrar que os grandes avanços da ciência só ocorreram por desobediência – Se Galileu Galilei não tivesse desobedecido, estaríamos até hoje achando que a terra é o centro do universo.

Por fim, diante da conjuntura política brasileira em que o chefe do executivo se diz e é visto por seus admiradores como um mito, a todo momento desqualificando as instituições mantenedoras da democracia, da ciência, do decoro, etc., numa clara alusão à sua propriedade exclusiva de decisão sobre a melhor direção do país e seu povo, o bom senso ressalta que a obediência não é uma opção, muito pelo contrário, cabe ao povo, de quem emana o poder na democracia, manter-se atento e crítico para não ser levado à uma ditadura.

Os militares devem manter-se em suas funções de defesa e proteção da sociedade e deixar a educação para a sociedade civil, que acima de tudo, deve formar cidadãos conscientes, críticos e protagonistas de suas vidas, capazes de romper com a opressão e construir um mundo de liberdade, igualdade de oportunidades e auto realização, que participem da discussão política em seu papel de “fonte do poder” na democracia.

Ps. Cabe à prefeitura de Cariacica, após uma boa aplicação de óleo de peroba, assumir suas responsabilidades de prover uma educação de qualidade com os recursos do imposto pago pelo povo daquela cidade, do estado e do país.

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