19/04/2021 às 09h15min - Atualizada em 19/04/2021 às 09h15min

A vacina e a vida represada

A vacinação dos idosos revelando o desespero pela liberdade

- Everaldo Barreto Moura é Pensador e professor de Filosofia
Filosofia na Veia
O fato da vacina evitar o adoecimento e suas complicações maioresjá representa um grande alívio. Foto: ilustração Web.


A vacinação de pessoas com mais de 60 anos transparece nas ruas. Uma sensação de alívio muito grande, por que além de serem mais ameaçadas e vulneráveis, as pessoas idosas também são mais fortemente atingidas,no campo emocional,devido ao distanciamento social imposto no enfrentamento à pandemia.

O curso natural da vida impõe aos idosos um certo isolamento social da própria família. Os filhos se emancipam, formando seu próprio núcleo familiar e se ocupam majoritariamente dos desafios próprios: competição social, formação, educação dos filhos, dentre tantas outras atividades.

Aos idosos restam apenas aqueles maravilhosos momentos de lazer, de encontros familiares de final de semana,ou ainda para os mais afortunados, os netinhos para levar à escola, ao parque, ao shopping, ou simplesmente fazer companhia.

A pandemia que vivemos a mais de um ano tirou desses, que pouco tinham, até mesmo esse pouco. Muitos idosos estão a mais de ano sem o abraço dos seus queridos, sejam dos mais velhos, ou aqueles mais espontâneos e apertados das crianças, que funcionam como o principal alimento de suas almas já cansadas das trilhas de luta da vida e em seu momento de renovação de valores e prioridades.

Esse primeiro mês de vacinação traz para essa população idosa uma significação muito maior que a proteção contra a doença, a possibilidade de reinserção naquilo que, nesse momento de suas vidas, é o mais significativo para eles. A condição de possibilidade de sentir a vida pulsar nas emoções relacionais carinhosas e, por que não dizer, alimentadoras de suas vidas, que demonstram sua continuidade e apelam para sua participação.

Apesar de sabermos que a vacina não imuniza completamente, o fato dela evitar o adoecimento e suas complicações maioresjá representa um grande alívio.Também temos consciência de que o normal que construiremos não será um retorno ao modo de vida que tínhamos antes de tudo isso.

O vírus continuará circulando, se reinventando, se fortalecendo e nos ameaçando entretanto, a conquista de uma segurança relativa a essas complicações nos possibilitará pelo menos, o convívio familiar,que certamente importa em qualidade de vida e saúde mental para uma maior e mais qualificada longevidade.

Conter as irreverências desse público especial, que muito se rebelou aos critérios de prevenção, sabendo que com o início da vacinação, mesmo só com a primeira dose, muitos já se arvoram à liberdade de circulação, não é tarefa simples.

Aguardar os trinta dias após a segunda dose para uma efetiva proteção é a recomendação, como a sabedoria popular nos diz: “prudência e canja de galinha nunca fez mal a ninguém”. Afinal, pelo menos agora, vemos “uma luz ao fim do túnel”.

Por fim, acima de tudo para os mais idosos valem as palavras de Cícero, Séc. I a.C. com meus realces:

À velhice não é inacessível o prazer, a criatividade ou ação, há moderação, substituição, liberação de paixões, amadurecimento de sentimentos, etc. as pessoas passam a viver mais consigo mesmas, num modo de viver mais tranquilo, aproveitando mais de sua sabedoria, clarividência, discernimento,ao que eu acrescentaria: “tempo disponível” para desfrutar das relações.


 
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