20/04/2021 às 18h52min - Atualizada em 20/04/2021 às 18h52min

O “Pequeno Príncipe” me deixou sozinho, na sala, no Brasil x Suécia !

Geovani cobrava faltas com maestria estufavam as redes

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Geovani um dos maiores ídolos do futebol brasileiro e ícone capixaba. Foto: Ricardo Medeiros / A Gazeta
 
A primeira vez que tive algum contato com o Geovani aconteceu, se não me engano, em 1979. Fui ao Araripe ver o Zico e acabei voltando para casa impactado com o “Pequeno Príncipe”, que entrou no segundo tempo e encantou, principalmente, ao dar caneta desconcertante em defensor do Mengão. 
 

Depois o acompanhava, avidamente, pela televisão, nas reportagens da TV Gazeta, feitas pelo Rui Monte. 


Continuei com o radar atento quando se transferiu para o Vasco, em 1983. No mesmo ano, fez chover no Mundial Sub-23, conquistado pelo Brasil. Fez o gol do título e foi eleito melhor jogador da competição, com imensa justiça. 


Teve atuação irretocável. Faltas cobradas com maestria estufavam as redes. Pênaltis nos quais os goleiros, tão maravilhosamente deslocados, nem saíam nas fotos, tentando adivinhar o canto. 


Um dia tive meu primeiro contato pessoal. Foi logo depois deste título mundial sub-23. Da banca de revista, no “Beco do Mijo”, onde me defendia das 6 às 18 horas, com 45 minutinhos para o almoço, o vi passar, acenando para os fãs, em carro do Corpo de Bombeiros. 


 No máximo duas horas depois, surgia o “Pequeno Príncipe”, na minha frente, para comprar a revista “Fatos & Fotos”, uma das principais do país, cuja a capa ilustrava. Certamente vinha da sede da federação de futebol que funcionava próximo à Praça Costa Pereira. 


Em 2006 ou 2007, já na Pauta Livre Assessoria, vi Geovani sendo apoiado para caminhar pelo professor Elias Sarcinelli, na sede da Secretaria de Esportes, em Bento Ferreira, onde fazia fisioterapia. 

 
Poucos na imprensa sabiam, ou tinham fotos que registravam o seu grave problema de saúde, depois diagnosticado “câncer na coluna vertebral” e “polineuropatia”. 

 
Mesmo impactado, de longe, com lente 300, fiz, sem ninguém perceber, pelo menos, 20 registros. Seria “furo” nacional. Mas jamais divulguei as fotos. Não faria tal maldade sem autorização. Seria imensa afronta a um dos maiores ídolos do futebol brasileiro e ícone capixaba. 


Aliás, não faria esta indelicadeza com ninguém. Mesmo se esta pessoa tivesse, dentro das quatro linhas, detonado o Mengão, ao lado de caras como Roberto Dinamite e Romário. No Jornalismo, estou longe de pensar que “vale tudo”. 

 

Pois bem. Eu tinha menos de um ano de A Gazeta e fui pautado para assistir com o Geovani, em sua mansão, na Ilha do Boi, ao jogo de estreia do Brasil na Copa de 1990. O capixaba era apontado como um dos injustiçados na convocação de Sebastião Lazaroni. 

 

Consegui combinar a pauta e segui com o repórter fotográfico Nestor Muller, um dos parças que tive. Sentamos na sala para ver o jogo e Geovani ficou por lá somente 15 minutos. Fiquei desesperado. O astro vascaíno foi para a copa (da casa) e iniciou jogo de baralho com vários amigos, alguns deles nomes conhecidos da música capixaba, como o Lula de Vitória. 

 

Sem chance de ver Geovani vibrando com a seleção do Brasil,  como estava escrito na pauta, Nestor sugeriu que o ex-jogador segurasse uma tulipa de cerveja. Geovani foi ríspido. “Pô Nestor, quer queimar meu filme”. 

 

O grande fotojornalista, resignado, fez a foto que podia ser feita. A do jogador concentrado nas cartas, longe da telinha. 

 
Mas, saiu visivelmente desapontado, para cobrir outras pautas. E eu fiquei por lá, com televisão transmitindo o jogo horroroso, sozinho na sala, e, além da minha inexpressiva carreira, 45 linhas para escrever na velha máquina Remington. 


Ouvia muitos barulhos do cômodo ao lado devido ao carteado. De vez em quando, o pai do Geovani, muito cordialmente, aparecia na sala, mas não aguentava o jogo sofrível. E eu mais fudido impossível, sem história para contar. 

 
O Brasil venceu por 2 a 1, com dois gols de Careca. Brolin anotou para a Suécia. 


Geovani seguiu a cartilha do jogador de futebol ao final da partida. Concedeu entrevista mais sem graça do que salada de chuchu. “O Brasil vai subir de produção ao longo da competição, pois tem ótimos jogadores”, disse, louco para se livrar de mim. 

 

O time de Lazaroni até subiu de produção, mas caiu nas oitavas contra a Argentina, com gol único de Caniggia. 

 

Após a entrevista fui beber umas brejas em Tabuazeiro, achando, exagerado, que seria demitido por ter fugido do padrão positivista, verde e amarelo. Mas, mesmo com menos de um ano de casa, liguei o “foda-se”. 

 

No outro dia recebi o jornal na minha residência, como todo mundo da redação. E, percebi, rapidinho, que alcançava a primeira capa da carreira. O título da matéria: “Cético e desinteressado, Geovani assiste somente 15 minutos da vitória na estreia da seleção”. 

 

Na semana seguinte, mesmo notadamente avesso às festas, fui convidado para churrasco na Ilha do Boi. Pedi taxi. Me enviaram o Sid Vicious ao volante. Em frente ao antigo Ginásio do DED o carro parou por falta de gasolina. Tive que ajudar o doidão a empurrá-lo até o posto mais próximo, 300 metros pagando mico e ouvindo ofensas gordofóbicas. 

 

Na Ilha do Boi, fiz a merda de comentar a matéria sobre Geovani, apontando a mansão. Sid Vicious freou abruptamente. Deu ré, subiu tresloucado na calçada e começou a gritar até que alguém chegasse na varanda. Tinham sido vizinhos na fase, digamos, pobre. Neste momento estava escondido no carro igual a rato no bueiro, fugindo de gato faminto. 

 

Os pais de Geovani acenaram para ele, que voltou ao carro e terminou a corrida, cobrando, o infeliz, o que marcava o taxímetro. 

 

Foi mal, Pequeno Príncipe. Foi mal!







 
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