29/04/2021 às 08h53min - Atualizada em 29/04/2021 às 08h53min

Dé Aranha, imortal no coração capa-preta

Dé foi tão marcante com a camisa do clube após sua despedida como jogador

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Dé impressionava com a bola nos pés. Veloz, com dribles curtos, desconcertantes. Foto Reprodução - Peter Falcão.

 



O Dé marcou minha infância e adolescência. Ele foi, sem dúvidas, um dos mais carismáticos jogadores dos anos de 1970. Quando o Vasco ia encarar o Flamengo, garoto, me preocupava mais com o Dé do que com o Roberto Dinamite, jogador com potencial infinitamente superior.  

Mas é que o Dé impressionava com a bola nos pés. Veloz, com dribles curtos, desconcertantes, e muito oportunismo, deixava os zagueiros enlouquecidos. E os torcedores dos times adversários, no mínimo, intrigados. 

Cavava pênalti com maestria. Partia em disparada e diminuía a velocidade bruscamente, mudando de direção. A falta por trás era inevitável. E a bola ia para a “marca do cal”. 

Folclórico concedia entrevistas super inspiradas. Seguia a linha do Dadá Maravilha. Digamos, baseado no “realismo fantástico”. 

Eu devorava suas entrevistas, desconfiando, deve confessar, de muitas delas. Como a que contou sobre gol que fez depois de arremessar o gelo na bola para atrapalhar o zagueiro Reys, do Flamengo. Jogou também areia nos olhos do goleiro Andrada em falta fatal cobrada por Aladin, do Bangu. 

O Dé fazia com que o povão com ele se identificasse. Cultivava cabelo Black Power de responsa e abusava da linguagem “carioca suburbana boa praça”. 

 Sonhava ver o Dé no Brancão, mas achava quase impossível. Ele, que começou no Bangu, já havia atuado em, pelo menos, uma dezena de clubes. Tais como: Bangu, Vasco (campeão brasileiro em 1974), Botafogo, Sporting (campeão português em 1973 e 1974), Al Hilal (campeão da Copa do Rei em 1980 na Arábia) e Bonsucesso. 

Pois ele pousou no Rio Branco. Foi indicado pelo treinador Vanderlei Luxemburgo, em seu primeiro clube. Estreou na inauguração do Kleber Andrade, no dia 7 de setembro de 1983, em amistoso, cujo não marcou, contra o Guarapari (3 a 2 para o Rio Branco). Foi a primeira vez que eu o vi, digamos, pessoalmente. 

Estava lá também quando fez o primeiro gol, contra o Colatina. Rio Branco não jogou bem, mas venceu, se não me engano, por 2 a 1. A galera do Bairro Santa Cecilia dava jeito para acompanhar de perto. De carona com amigos ou de busão marcávamos sempre presença. Naquele ano, o Rio Branco foi campeão.

Mas o Dé foi reverenciado mesmo durante o Campeonato Brasileiro de 1984. Rio Branco foi um dos destaques da competição nas sete primeiras rodadas. Tecnicamente e de público. 

Era orgulho vê-lo em ação em jogos como, por exemplo, a vitória por 3 a 1 sobre o Cruzeiro, no Mineirão, pela segunda rodada. Dé fez dois gols e Arildo Ratão, um. O jogo passou na TVE e resgatou o orgulho capixaba em pleno verão de fevereiro, com milhares de mineiros no nosso litoral. 

No ano seguinte, Dé, sem, logicamente, o mesmo vigor, mas atuando de forma bem mais cerebral, foi novamente campeão capixaba, fazendo sete gols na competição. Foi bonita demais a campanha. Nosso carinho pelo ídolo aumentava. 

No ano de 1986 já não dava mais. As voadoras que levou dos zagueiros, nos variados gramados, cobravam seus preços e Dé precisava se retirar.  

O Rio Branco fez linda festa e Dé Aranha (apelido dado pelo radialista Washington Rodrigues, o Apolinho), se despediu. 

Foi emocionante. Amistoso contra Costa do Marfim, com Roberto Dinamite vestindo o Manto Capa-preta, dividindo o ataque com o Dé. O jogo terminou 4 a 3 para a seleção africana e Dé marcou o seu 31º (e último gol) pelo Rio Branco, clube pelo qual atuou 79 vezes. 

Nós invadimos o gramado. Dé foi carregado nos ombros pelos torcedores. Gritamos quando descia para o túnel e ele nos acenou. Foi o suficiente para noite tranquila de sono e de doces recordações. 

O Dé foi tão marcante com a camisa do clube, que acabou convidado para treina-lo e tira-lo da fila de títulos, 24 anos após sua despedida como jogador. E também do último título capa-preta. 

Ele chegou na reta final da competição e não é exagero dizer que a Grande Vitória se alvoroçou naquele último trimestre de 2010. Já quarentão “bem vivido”, estava no escritório da Pauta Livre Assessoria quando parça que cobria futebol pediu a gentileza de envia-lo fotos do Dé e do treino do Rio Branco que decidiria título no sábado à tarde contra o Vitoria. A Editoria de Fotografia do jornal estava enrolada, com muitas pautas naquela tarde, nos disse. 

Era quinta-feira. Pedido de parça é ordem. O Rio Branco treinava em centro esportivo de associação bancária localizado próximo a Bicanga, na Serra. Fomos lá e nos sentimos em casa devido ao grande número de boleiros que conhecíamos nos quase três anos que assessoramos a Desportiva. 

Cheguei perto do Dé visivelmente emocionado. Ele, educadamente, me estendeu a mão. O fotografei, a Lorena, minha sócia, o entrevistou e terminamos em dez minutos a tarefa antes do início do treino coletivo que nos teria que render algumas fotos para enviar ao parça do jornal. 

Então, puxei conversa com o Dé e ele me disse que após largar os gramados sempre curtia vir ao Estado anonimamente, rever amigos. Visitar os lugares por quais se apaixonou nas temporadas pelo Rio Branco (e também Desportiva Ferroviária clube que jogou e treinou). 

“A torcida e o clube foram generosos comigo, acima da média. Recebi carinho dos capixabas que não se compara. E uma faixa me emocionou muito na minha despedida: ‘Dé obrigado por fazer parte da nossa história’”, comentou emocionado. 

Abracei o Dé e o deixei trabalhar. No sábado fui lá no Araripe e vi de perto o Rio Branco acabar com o jejum de 24 anos sem conquistas. Dé passou mal e foi socorrido pela ambulância. “Curtiu” o título atendido por médicos. Seu coração capa-preta quase não aguentou. 

A torcida, composta em sua maioria por jovens, o reverenciou. Vi ali que nos corações capas-pretas, incluindo o meu, Dé é, na verdade, imortal. 

 

 

 

 

 

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