12/05/2021 às 18h39min - Atualizada em 12/05/2021 às 18h39min

Vivi final de semana iluminado com um dos maiores heróis olímpicos

Brasileiro foi contemplado com a maior condecoração do COI, a Medalha Pierre de Coubertin

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Vanderlei teve um “anjo da guarda”, o grego Polyvios Kossivas, que o ajudou a se livrar do fanático. Foto Getty Images.

 

Todas as vezes que fui convidado para palestrar nos Cursos de Residência de A Gazeta, onde trabalhei durante mais de 15 anos, destaquei para a rapaziada que quem escolhe seguir carreira de Jornalista esportivo tem que se preparar para se tornar um antissocial. Não pela própria escolha, mas pelas características da profissão. 


O Jornalista esportivo é plantonista por natureza. Tem que esquecer, por exemplo, as reuniões com familiares e amigos, quarta e quinta, e, sobretudo, sábado e domingo. São nestes dias que o “coro come” nas mais variadas modalidades. 

Estava em um “domingão daqueles” na redação de A Gazeta quando assisti pela televisão, incrédulo, a maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.  

Na redação imensa, sozinho, estava teclando matéria e assistindo a tudo em uma das várias televisões (preto e branco) minúsculas que ficavam à disposição. 

Estava cheio de dúvidas sobre o futuro e meio angustiado, pois, já havia decidido pedir demissão quando voltasse das férias previstas para começar algumas horas depois.  

Resolvi curtir a vitória de Vanderlei Cordeiro de Lima, atleta que admirava muito pela história de luta, de família de “boias frias”, que chegou a correr descalço e a passar dificuldades extremas na infância. 

Era questão de minutos para seguir, feliz, após vê-lo garantir o ouro, rumo às brejas e 30 dias de descanso. Mas aí o ex-padre irlandês, maluco nada beleza, Cornelius Horan resolveu fazer a presepada e atrapalhar sua corrida, o segurando sem cerimônia.  

Vanderlei estava a sete quilômetros da chegada e tinha 30 segundos de diferença sobre o segundo pelotão. 

As minhas últimas férias em A Gazeta demoraram mais, pelo menos, uma horinha para começar. 

Ainda bem que Vanderlei teve um “anjo da guarda”, o grego Polyvios Kossivas, que o ajudou a se livrar do fanático.  

Vanderlei voltou à disputa ainda na primeira colocação, mas, com o ritmo quebrado e imenso desgaste emocional, foi ultrapassado pelo italiano Baldini e pelo norte-americano Meb Keflezighi, terminando com a medalha de bronze. 

Pelo seu “espírito olímpico”, o brasileiro foi contemplado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) com a maior condecoração possível da entidade, a Medalha Pierre de Coubertin. 

Meia Internacional da Serra 

A Pauta Livre foi contratada para assessorar a Meia Maratona Internacional da Serra em meados de 2009. E decidimos acompanhar as atividades oficiais do Vanderlei. Ele já havia praticamente encerrado a carreira, mas no contrato que firmou prometeu correr a prova. 

Na sexta-feira, o recebemos no aeroporto de Vitória. Embora várias pessoas indagassem quem era, passou praticamente despercebido e nenhum autógrafo concedeu. Mas o semblante continuava sereno, humilde, sem afetações. Nos concedeu bela entrevista. Posou para nossas fotos pacientemente e seguiu no carro providenciado pela organização para o hotel. 

Antes nos disse na entrevista: “Não tenho mágoa nenhuma do irlandês. São situações que acontecem ou podem acontecer em corridas de rua. Dei azar de ele estar ali naquele momento”. 

“Uma medalha olímpica é fruto do que o atleta passa durante toda a sua carreira e não somente dos treinos preparatórios. Chegar ao topo não acontece em dias ou meses. Nem em poucos anos. Mas em décadas. Isso se aplica também à vida”, afirmou. 

No sábado estivemos com ele tarde praticamente inteira em shopping do Bairro Parque Residencial Laranjeiras, na Serra. Desta vez concedeu dezenas de autógrafos, tirou muitas fotos sem reclamar um segundo sequer. Lá, foi realizada a entrega de kits da prova. Estava, portanto, ao lado dos seus pares. 

Conversamos demoradamente devido às circunstâncias e ele voltou a comentar sobre o ocorrido na Olimpíada de Atenas. “Naquela situação, quando você é agarrado nem lembra que está sendo filmado e visto pelo mundo inteiro. Você só pensa em se livrar o mais rapidamente possível para poder terminar a prova”, disse. 

Sobre todo o assédio no shopping ao cumprir exigências contratuais, Vanderlei não escondia a alegria, apesar do cansaço. “É bom demais ser admirado pelas pessoas. Não há recompensa maior para um atleta”. 

Nosso terceiro encontro foi no domingo, dia da corrida. Antes da prova seguiu à risca nossa agenda de entrevistas. Ao nosso lado, atendeu a quase uma dezena de repórteres e blogueiros especializados.  

Com carreira praticamente encerrada cruzou a linha de chegada longe do pódio dos cinco primeiros, mas fazendo “aviãozinho” com os braços e com sorriso contagiante na boca, como quem quisesse agradecer ao mundo por ser feliz. 

Rio 2016 

Em 2016, eu estava credenciado para cobrir a Olimpíada do Rio para a Confederação Brasileira de Triathlon. E estressado por tudo aquilo que envolve atuar em evento deste porte (incluindo viagens à sede do COB, na Barra da Tijuca, para treinamento). 

O Comitê Olímpico Internacional (COI) guardou a sete chaves quem acenderia a Pira Olímpica, momento máximo da Cerimônia de Abertura.  

O nome mais cotado era o do Pelé. Mas algo me dizia que seria o Vanderlei Cordeiro de Lima. Não deu outra. Quando o vi na telinha fiquei extremamente feliz. E até chorei, para ser sincero. Foi feito Justiça neste mundo injusto.  

E agradeci, com muita cerveja gelada, aos deuses do Olimpo por tê-lo conhecido e vivido algumas horas nas quais dediquei-me, exclusivamente, devo confessar, a contemplá-lo. 

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