20/05/2021 às 22h25min - Atualizada em 20/05/2021 às 22h25min

Suzy Fleury, psicóloga da seleção brasileira, e o técnico capixaba bêbado igual gambá

A psicologia no esporte não é levada a sério como merece

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Apesar da imensa notoriedade, Suzy me recebeu com extrema cordialidade, conta o repórter Peter Falcão na crônica-reportagem.Foto:Divulgação
 
 
 
Um dia, conversando com o psiquiatra e psicanalista Paulo Bonates, informalmente, em boteco colado à sede da Rede Gazeta, onde trabalhava, o indaguei por que a maioria dos times capixabas de esporte amador, mesmo sendo nitidamente superior tecnicamente, não conseguia vencer equipes de “clubes de camisa”, principalmente do eixo Rio-São Paulo? 
 
Paulo, que de vez em quando dava palestras, a pedido de outro amigo médico, diretor de futsal de grande clube de Vitória, seu xará Paulo Marangoni, me respondeu: “Talvez porque vestir aquela camisa do time adversário era tudo o que ele sonhou na vida, então isso poderia ocasionar certo bloqueio”. 
 
Eu curtia muito a psicologia aplicada ao esporte. Um dos pioneiros no Estado neste segmento foi o ex-prefeito de Vitória, em dois mandatos, Luciano Rezende. Médico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), especializado na área de dopagem, Luciano falava para a galera munido de muita experiência, afinal, foi atleta vitorioso, sendo campeão sul-americano de remo, ao lado do irmão Lúcio, em double skiff muito respeitado. 
 
Um dia, grande entidade capixaba trouxe várias personalidades do mundo esportivo para palestrar no Centro de Convenções de Vitória, no Bairro Santa Lúcia. Foi lá no início dos anos 2000. E a palestra mais disputada, que superou até mesmo a da Magic Paula, foi da Suzy Fleury.

Fleury era muito assediada. Fez trabalho brilhante no Palmeiras, a convite do Wanderley Luxemburgo, em 1993, e, após atuar em vários outros clubes e entidades, foi contratada também pela CBF para atuar na seleção brasileira de futebol. 
 
Apesar da imensa notoriedade me recebeu com extrema cordialidade. Fez pose para o repórter fotográfico Carlos Alberto Silva e depois sentou-se comigo em uma poltrona para longo bate papo. 
 
Ela se expressa muito bem e vai no epicentro comportamental dos atletas. “Não adianta treinar duro a parte física durante anos, se o atleta não tem a preparação adequada psicológica. No primeiro obstáculo, a sua mente não vai acompanhar o seu corpo e o rendimento cairá verticalmente”, destacou. 
 
“Não tenho dúvidas de que o trabalho de acompanhamento psicológico deve ser feito desde os primeiros passos do atleta, lá nos petizes ou fraldinhas. O aprendizado não o tornará somente um atleta melhor, mas um ser humano mais preparado para a vida, inclusive, profissional”, disse. 
 
Na ocasião, o Brasil tinha profusão de atletas problemáticos, os chamados bad boys. A Suzy fazia questão de destacar a necessidade de ajustar seus comportamentos em benefício do grupo.  
 
“Deve-se mostrar que uma atitude imprudente ou destemperada pode prejudicar o trabalho de temporada inteira. A pessoa deve ser levada a pensar nisso antes de agir irresponsavelmente”, comentou a Suzy. 
 
Eu me despedi da Suzy muito satisfeito com a entrevista, mas antes de ir embora ela me falou: “É importante também cuidar da cabeça de quem chegou ao auge”. 
 
Indaguei o motivo e ela foi direta ao ponto: “Muita gente não tem o mínimo de preparo para o sucesso. Chega ao topo e psicologicamente acha que a vida não faz mais sentido. Então perde rendimento e vai viver tudo que o mundo oferece de uma só vez”. 
 
Eu fui para a redação procurando exemplos desta afirmação e o mais nítido que vi foi o da geração que conquistou, muito jovem, a medalha de ouro em 1992, no vôlei de quadra masculino. Se tivesse mantido o foco, tenho a impressão, teria imensa possibilidade de repetir o feito quatro anos depois. 
 
Eu, sinceramente, acho, que até hoje, 20 anos depois do meu encontro com a Suzy Fleury, a psicologia no esporte não é levada a sério como merecia. Nem nos clubes de esporte olímpico, nem nos de futebol. Vide o comportamento de muitos atletas durante a pandemia. Mas o país avançou neste segmento. 
 
Com 32 anos de profissão, peço permissão para contar situação que vivi, bem de perto, que denota nosso amadorismo, nos tempos remotos, na preparação psicológica das equipes. 
 
Viajei para outro Estado para acompanhar a seleção capixaba de modalidade coletiva. Conhecia relativamente quase todos os atletas. Não tinha ingênuo por ali. 
 
A cidade que estávamos tinha praias belíssimas e forró dos mais animados, além dos puteiros famosos e disponíveis para todas as classes sociais. A noite fervia. Após o jantar, lá pelas 20 horas, o treinador reunia a turma, fazia palestra motivacional, exaltando a disciplina e a união do grupo e convocava a oração do “Pai Nosso”. Abraçados, todos oravam. 
 
Os atletas seguiam para os seus quartos. E o treinador para a esbórnia. A galera, contudo, trocava a camisa da seleção com o recepcionista por informações do horário da chegada do técnico. E quase todos olhavam pela fresta da porta o sujeito chegar cambaleando devido aos efeitos do álcool. Bêbado igual gambá. 
 
Lembro até hoje da rapaziada imitando o comandante diante do meu olhar inexperiente e incrédulo. 
 
No dia seguinte, todos seguiam para o ginásio. O time, dispersivo, perdia os jogos. O esporte modernizou. E o técnico amarga mais de duas décadas de ostracismo, desempregado. 
 
Na vida, parceiro, quem não tem maturidade psicológica para encarar responsabilidades paga seu preço.  E como paga! 

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