27/05/2021 às 10h08min - Atualizada em 27/05/2021 às 10h08min

Daqui vejo seus pés sangrarem, de tanto varrer o chão!

Um senhor com cerca de 65 anos, sofre de Alzheimer

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Pessoas com transtornos mentais são as mais indefesas e inofensivas deste bairro gigante e indiferente. Foto: Peter Falcão

 

Quem mora em Jardim Camburi já deve tê-los visto, pelo menos uma vez. 

São personalidades que habitam o cotidiano, cada qual a seu modo.  

E que nos remetem à reflexão da nossa fragilidade, à medida que expõem as suas. 

Falo dos transtornados mentais, que vivem situações perturbadoras. 

São sete da manhã. Senhora muito bem vestida, com roupa de seda e bolsa de marca, começa a caminhar pelas calçadas.  

Cabelo bem penteado, vai andando contra e a favor dos ventos. Horas à fio, com olhar distante. Mirando sabe-se lá o quê. 

No final da tarde, a vejo trôpega, roupa já suja, cabelo em desalinho. Ensaiando o fim da jornada, mais de dez horas depois. 

 Para onde segue, desconheço. Mas sei que no outro dia a encontrarei bem cedinho. Embora não seja razoável cumprimenta-la. Hora nenhuma. Ela não dá a mínima. Parece nem nos enxergar.

 O senhor, com cerca de 65 anos, sofre de Alzheimer. Muito limpo, sai também pela manhã para sua jornada solitária. Adora fazer barulho nos portões para alvoroçar os cachorros. Revira lixo eventualmente. Em busca do que não sabemos. Logo depois vai na pracinha e brinca com as crianças, com permissão desconfiada dos pais, apalpando suas bochechas.  

Quando sente alguma dor, recorre, desnorteado, à banca de revista. Cordial, Dudu, o proprietário, lhe aponta a direção das farmácias. 

Quando está perdido, faz gestos ou indaga onde fica prédio grande, de cor amarela. Muitas vezes seus parentes o procuram pelas ruas de carro e quando não o acham destacam o seu breve desaparecimento nas redes socias. A galera escreve UP, sinal de que está ciente. E logo alguém indica onde ele se encontra para o resgate familiar. 

No verão, aqui na esquina de casa, percebíamos senhora que adora varrer a rua. Trabalha como faxineira. Faz isso o tempo todo. Até mesmo quando chove ou ameaça tempestade. 

Acontece que o outono chegou. Vejo no chão quantidade inumerável de folhas e flores. E ela varre com fúria de leoa. Seus vestidos rasgaram. Seu rosto está cada vez mais vermelho, queimado pelo sol. E seus pés, rachados, sangram. 

São as pessoas com transtornos mentais que se apresentam aos “olhos nus”. São as mais indefesas e inofensivas deste bairro gigante e indiferente. 

Tenho certeza. 

                              

 

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