02/06/2021 às 10h43min - Atualizada em 02/06/2021 às 10h43min

Bebi umas biritas com Zé Kéti, no Trailer da Conceição!

“Opinião” foi sim um dos maiores petardos contra a ditadura

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Zé Kéti foi incisivo: “As canções são poesias enviadas por Deus. Não se explicam”, Foto: Reprodução Web - Peter Falcão
 
 

Fui apresentado ao Carnaval com oito anos. Em grande estilo. Meus tios Antônio e Jane me levaram à matinê do Saldanha.  

 No salão nobre fiquei, imediatamente, encantado com tantas luzes, cores e sons. 

 Abriu-se em minha cabeça fenda imensa para absorver tamanha energia. No meu coração, sentimento de que não merecia tanto. Ainda mais por que com eles veio menina com olhos doces, de cor castanha absurda. 

 O cenário estava perfeito para felicidade incontida de menino suburbano que frequentava, todos os domingos, missas. 

 Foi quando a bandinha tocou “Máscara Negra” e eu comecei a pensar que se apaixonar era melhor do que idolatrar padres.   

 Olhei para a menina e percebi planeta novo se apresentar, me tomar sem contestação. 

 No outro dia, na Escola Pública Municipal Suzete Guendet, ao devorar a sopa de triguilho pouco temperada, já começava a esquecer a menina e olhar a vida “cara a cara”. 

 Mas, “Mascara Negra” não saia da cabeça. Pensava: “Um dia vou conhecer este cara que fez a música. Mesmo que tenha que ir ao Porto de Vitória”. 

 Na minha visão, personalidades inatingíveis só eram possíveis ver de perto no porto. Sabe-se lá por que. 

 Ao lado do jornal A Gazeta, onde trabalhava, a Conceição, viúva batalhadora, começou a servir comida na varanda de sua casa.  

 Depois, com negócio prosperando, em trailer. Pouco mais tarde, em restaurante de responsa. 

 Mas, para os cervejeiros não adiantava. “Vamos no Trailer da Conceição”. Esta era a chamada, mais pontual do que o Bing Ben, às sextas-feiras. 

 Eu era frequentador assíduo. Menos do que merecia porque vivia brigando com a balança. 

 Um dia, parei por lá, sem pretensão, e vi, sentado em outra mesa, o Zé Kéti, que passava tempo em Vitória, pois, curiosamente, querida prima Sandra cuidava de sua carreira. 

 Petrificado pensei. “Vou deixa-lo quieto. Com tantas obras maravilhosas como ‘Diz que fui por aí’, ‘A voz do morro’, ‘Acender as velas’, ‘Opinião’ e ‘Máscara Negra’, certamente, o que ele menos desejava era repórter esportivo com 120 quilos, de pura pretensão, fazendo perguntas”. 

 Mas, não resisti. Respirei fundo e apresentei-me, evidentemente usando tráfico de influência. Começamos conversa, para mim (e, certamente, somente para mim) das mais proveitosas. 

 Perguntei-lhe como foi ter sambas censurados pelo Regime Militar. E ele disse que no início não entendeu muito bem, pois, seus sambas retratavam, essencialmente, a realidade dos morros. 

 Zé Kéti destacou que a música “Opinião” foi sim dos maiores petardos contra a ditadura, pois, protestava contra a desocupação violenta dos moradores das comunidades, dentre outas situações. 

 (“Podem me prender/Podem me bater/Podem, até deixar-me sem comer/Que eu não mudo de opinião/Daqui do morro/Eu não saio, não/Se não tem água/Eu furo um poço/Se não tem carne/Eu compro um osso/E ponho na sopa/E deixa andar/Fale de mim quem quiser falar/Aqui eu não pago aluguel/Se eu morrer amanhã, seu doutor/Estou pertinho do céu”). 

 
Pensando em encerrar o papo, pois, sabia, que já estava sendo chato, perguntei como era a convivência, naquela época, entre os protagonistas do espetáculo teatral musical revolucionário “Opinião”, primeira manifestação de resistência à Ditadura, após o Golpe Militar. 

Ele disse. “Era a melhor possível, pois reunia gente de todas as classes sociais e gostos musicais. Desde o rico de classe alta da Zona Sul do Rio (Nara Leão), ao pobre do sertão nordestino (João do Vale) e um poeta da favela”. 

 Eu me enchi de coragem e fiz a pergunta que martelava minha cabeça durante décadas, desde os primeiros acordes na matinê do Saldanha.  

 “Qual, afinal, foi a inspiração para compor “Máscara Negra”?  

 Zé Kéti foi incisivo, certamente me achando, por demais, espaçoso. “As canções são poesias enviadas por Deus. Não se explicam”, disse. 

 Depois desta breve conversa, amigos chegaram de todas as partes no Trailer da Conceição. Fui dando espaço para outros admiradores.  

 Feliz por desfrutar de alguns minutos que certamente valem uma vida. Não é mesmo? 

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