16/06/2021 às 16h59min - Atualizada em 16/06/2021 às 16h59min

Tulio Maravilha, o adorável fanfarrão e os tigres de papel

Tulio foi único jogador três vezes artilheiro do Brasileirão da Série A

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Foto Botafogo/Divulgação

   Estava voltando das férias em 2003 quando fui pautado para entrevistar o Tulio Maravilha, prestes a assinar contrato com o Tupy para disputar a Copa Espírito Santo.   


O celular, com prefixo de Goiás, estava na mensagem que me pedia para extrair curiosidades do atacante, mais exposto na mídia do que frango assado em padaria. 


Na primeira ligação, Tulio atendeu, mas disfarçou a voz e disse que não estava, quando falei que era do jornal A Gazeta, de Vitória. 


Esperei alguns minutos e pedi para a telefonista refazer a ligação. O atacante voraz repetiu o texto, acrescentando que o Tulio havia ido à padaria. 


Arrisquei a terceira ligação, mas com uma bela cascata, usando a Rede Globo como “pistolão”. 


_ “Tulio, aqui é o Peter, sou da Rede Gazeta, afiliada da Rede Globo”. 


_ “Fala parceiro”, foi o que ouvi do outro lado. As portas estavam abertas, portanto, para a conversa. 


Mas, o cara, apesar de gente boa, não dá para ser levado muito a sério.  


_ Tulio, o que o capixaba pode aguardar de sua passagem pelo futebol do Espírito Santo? 


_ “O futebol capixaba vai ser AT e DT”, respondeu. 


_ Como assim? 


_ “Antes de Tulio e depois de Tulio”, mandou de primeira. 


_ Mas você já está com idade um pouco avançada, 34 anos, provoquei. 


_ “Mas sou igual à moqueca de vocês. Tenho selo de qualidade”, devolveu com classe. 


Dentre outras perguntas, indaguei o motivo da obsessão pelos mil gols. Ai o frasista me lançou a pérola: 


_ “Eu não persigo os gols, eles que correm atrás de mim, adoram meu perfume”. 


Encerramos o primeiro papo. Morri de rir das respostas, mas achei meio tosca a entrevista. Fútil demais para os meus padrões da época que não me deixavam relaxar nunca. 


Nosso segundo encontro aconteceu quando ele já treinava no Tupy. Perguntei-lhe sobre o famoso gol contra a Argentina, pela Copa América de 1995, quando usou o braço esquerdo para dominar a bola e o juiz não viu. 


_“Foi o gol que me deu fama mundial. Zagalo pediu para eu entrar e resolver e foi o que eu fiz. O Brasil seria eliminado. Acabou vencendo nos pênaltis. Na coletiva, os argentinos chegaram furiosos. Aí eu disse: Maradona fez o gol de Deus. Eu fiz o da Virgem Maria, a Mãe Dele.  Todos gargalharam e mais ainda eu”, comentou. 


Tulio foi único jogador três vezes artilheiro do Brasileirão da Série A e único artilheiro das Séries A, B e C. Mas perdeu todo o dinheiro com péssimos investimentos e gastos absurdamente mal planejados, como festas suntuosas. 


_ “Na mesma velocidade que a vida te dá, ela te tira parceiro”, me disse com olhos melancólicos. 


Foi a senha para eu entender que o seu marketing ostensivo, mesmo na reta final, era na verdade, forma de autodefesa para evitar explicações de derrotas que só fizeram mal a ele mesmo e seus familiares. 


Tulio Maravilha era personagem para mundo hipócrita no qual todos são obrigados a “dar certo”, sem mesmo saber do que isso se trata. 


Sua passagem pelo futebol capixaba foi rápida e pouco produtiva (cinco gols). Mas pelo futebol, brilhante, mesmo com suas visíveis limitações técnicas.  


O anti-herói dos gols improváveis. Mais de 1000 segundo suas contas. E não mais do que 578 conforme as oficiais.  


Eu não me importo. O acho mais original do que muitos craques que estão por aí, verdadeiros tigres de papel. 


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