30/06/2021 às 15h03min - Atualizada em 30/06/2021 às 15h03min

Estive com o Uri Guerer, desta vez entortando corpos

Júlio jogou em vários clubes do Brasil, inclusive, o Vasco

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
ão falo do ilusionista israelense,mas do ponta esquerda abusado do Flamengo, o Júlio Cesar, cara de dribles devastadores. Foto: Divulgação.

 
 Devido ao alto grau de salinidade, em função da proximidade com a Baía de Vitória, a piscina olímpica do Álvares Cabral proporciona maior flutuação e possibilita aos nadadores tempos razoavelmente melhores dos que treinam em clubes localizados longe do mar. 
 
Mas, no campo de futebol soçaite do clube isso não melhora porra nenhuma a performance. O que flutua, muitas vezes, é a bola, após chute, sem modos, de zagueiro brutamonte. 
 
Repórter de esporte olímpico odeia cobrir jogos festivos de veteranos. Eu não fugia à regra, ainda mais porque acabava de chegar da Paralimpíada de Sydney e estava, portanto, com motivação extrema para pautas mais interessantes. 
 
O jogo era entre masters do Flamengo e do Alvares Cabral. Devo confessar que só me motivei para cobrir a pauta ao ver na lista o nome do Uri Guerer.  
 
Não falo do ilusionista israelense, que impressionou muita gente ao entortar talheres no início dos anos de 1980, mas do ponta esquerda abusado do Flamengo, o Júlio Cesar, cara de dribles enlouquecidos e cruzamentos com efeito devastador. 
 
A memória do Júlio César que tinha na cabeça e, principalmente, no coração era de cara cabeludo, com jeitão praiano carioca.  
 
Então, foi difícil reconhece-lo quando a delegação chegou, quase totalmente calvo e com óculos de grau. Lembrando professor de matemática. 
 
Mas, já nas primeiras frases foi possível perceber que o carisma do “terror dos laterais” permanecia mais vivo que nunca. E o papo rolou delicioso. 
 
Júlio lembrou que morava na comunidade da Praia do Pinto, tinha seis anos, e se destacava na equipe. Outro garoto brilhava em comunidade vizinha. Fizeram amistoso para saber quem era melhor e daí nasceu grande amizade. O outro garoto era o Adílio. 
 
Os dois pularam, seguidamente, os muros da Gávea para treinar futsal no Flamengo. Deu certo, mas não foi fácil. Ao Júlio foi permitido vender amendoins na portaria do clube. Para ele, nada mal. Já que estacionava carros em troca de alguns preciosos trocados em sua comunidade. 
 
Apaixonado pelo clube, um dia, embora promissor atleta, resolveu “invadir” as arquibancadas para ver jogo do escrete principal. A polícia percebeu e ele apanhou um bocado. 
 
No domingo seguinte foi relacionado pela primeira vez para jogo profissional. E esteve bem pertinho dos policiais. A ponto de poder olhar nos seus olhos. Coisas da vida. 
 
Júlio conquistou mais de dez títulos pelo Flamengo. O mais especial, o do Brasileiro de 1980.  O apelido foi dado pelo lendário João Saldanha.  
 
Ele não esquece o valor da liderança do Deus. Com quem trabalha até hoje no CTZ (Centro de Treinamento Zico). 
 
Segundo ele, os jogadores olhavam para Deus, durante os jogos, e sabiam que em alguma hora ele resolveria. O Camisa Dez da Gávea nunca foi de gestos mais fortes para exercer a liderança. Bastava alguns movimentos que a galera entendia. 
 
A amizade com Adílio é das maiores conquistas da sua vida. São como irmãos. Confidentes e cumplices. 
 
Júlio jogou no Talleres e no River Plate, da Argentina, respectivamente, nos começos dos anos de 1980 e de 1990. Segundo ele, o argentino demora um pouco a respeitar o brasileiro que se aventura por lá. Não é raro recebe-lo com pontapés, aplicados “cirurgicamente”. 
 
Mas, se este mostra raça e talento, tem as portas abertas. Mais ou menos. Em 1982, “Chuteira de Ouro”, quase se naturalizou. Iria jogar a Copa da Espanha ao lado do Maradona, mas teve carrinho por traz que ferrou os ligamentos do tornozelo. 
 
Júlio jogou em vários clubes do Brasil, inclusive, o Vasco nas temporadas de 1983 e 1984, mas sempre destacou o coração rubro-negro, tendo defendido o Flamengo 134 vezes. 
 
Pelo Flamengo fez poucos gols (somente dez), mas deu dezenas de assistências que resultaram em redes estufadas e gritos emocionados nas arquibancadas. 
 
Já tinha apurado a matéria. O repórter fotográfico e parça Claudney Pessoa fez as fotos e seguiu para outras pautas naquele sábado de sol. Eu me despedi dele e prometi voltar andando para a Rede Gazeta, que ficava a 400 metros do campo. 
 
Acontece que resolvi ver o Uri Guerer em ação, mesmo com barriguinha saliente e muitos quilos a mais, contra os bravos zagueiros da brigada cabralista (clube centenário e de inúmeras glorias nos esportes terrestres e de mar, individuais e coletivos). 
 
Foi, com todo respeito, hilariante. Alguns parceiros meus, técnicos e dirigentes, do esporte amador do clube alvinegro sofrerem um bocado na mão do ilusionista da bola, apesar da solidariedade das esposas, filhos e dos amigos da cerveja no famoso Bar Mangueirão. 
          
O drible era rápido e seco. Poderiam ser feitos no espaço de uma reles folha de papel ofício. Quem chegava, alguns centésimos de segundos depois do preciso domínio da bola, lançada com efeito, passava reto. Outros acabavam ralando os bumbuns no chão. 
 
Mas, ninguém parecia, para ser sincero, se importar muito.  
 
O Uri Guerer entortava corpos. E eu revivia tempos saborosos da infância, que jamais voltaram. E, preciso dizer parceiro: nunca mais voltarão. 
 
Obrigado Júlio César. Namastê Uri Guerer. 

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