08/07/2021 às 18h52min - Atualizada em 08/07/2021 às 18h52min

Na praça, o acolhimento dos garis me ensina que dias melhores virão

Trazem sempre palavras gentis e rapidinho nos livram da sujeira

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Envelheço na praça, apostando em dias melhores e profundamente grato com o acolhimento dos garis. Foto: Peter Falcão.


Pelo menos três vezes por semana passo algumas horas na praça que fica a 100 metros daqui de casa. Quando não estou muito bem, sinto que a natureza e os animais me animam. É um sentimento, não cabe explicação. 

Aos sábados e domingos levo na bolsa de gelo quatro latões de cerveja e fico fotografando pássaros, enquanto degusto minha bebida favorita. 

Algumas situações me divertem, outras aborrecem, todas intrigam. 

Dias destes, morador em situação de rua me pediu as latinhas. Prometi guarda-las para ele. Foi o bastante para o caro colega sentar-se em um banco e ficar esperando eu devorá-las.  

Para diminuir o incômodo bebi rapidinho as quatro e voltei para casa meio trôpego e com vontade de ir ao banheiro. 

Em outra ocasião, a mãe de garoto de sete anos, me pediu para ficar de olho no moleque para ir à padaria, “jogo rápido”. O trabalho na padaria foi realmente breve, mas na volta a madame encontrou amiga pelo caminho, a cem metros de mim, e iniciou bate papo longo, quase um tempo de jogo oficial de futebol.  

E eu cuidando do garoto, serelepe sobre o escorregador e outros brinquedos. 

Como estou sempre por lá, sou recebido com festa por alguns cachorros. Gosto deles. E observo que os raros inconvenientes possuem donos grosseiros. Alguns nitidamente fascistas. 

Eu fico por ali e não raramente sou alvo de pessoas que querem me salvar, me levando “para a igreja”. Acham que estou deprimido, por estar sozinho, e que meu refúgio é o álcool em função dos quatro latões. Recebo panfletos e, se bobear, conselhos. 

Tem gente que só quer palavra de conforto. Como diria o poeta “a solidão devora”. Eu limito-me a acolher, se possível silenciosamente. Jamais a aconselhar. Quem sou eu para meter bedelho em vida alheia? 

Em algumas situações vejo poucas saídas para a humanidade. Como pais que humilham os filhos nitidamente descarregando nos seus ombros o estresse ou frustração. É pesada a cena. Vejo também babás sem empatia alguma, embora a imensa maioria seja carinhosa. 

Nos últimos anos tenho tido companhia cada vez maior dos desempregados e seus olhares tristes, aparentemente humilhados. 

Muita gente me aborda para contar suas vitórias financeiras, que, sinceramente, a mim não dizem nada. Por dentro percebo que talvez derrotas lhes seriam mais úteis. 

Vejo também vovôs correndo atrás dos netinhos. E penso: “que bom se fosse por opção”. 

Quem me trata bem mesmo são os garis. Trazem sempre palavras gentis e rapidinho nos livram da imensa sujeira da noite anterior.  

E quando partem nos ônibus da prefeitura não esquecem de nos acenar das janelas, em gesto que nos traz a mensagem que “dias melhores virão”. 

No turbilhão de sentimentos que absorvo na Praça Nilze Mendes considero os dos profissionais da limpeza urbana o mais sincero. E profundo.  

Dia destes, um passou bem perto de mim e disse. "Pode ficar tranquilo, não vamos incomodar o senhor”. 

Envelheço na praça, apostando em dias melhores e profundamente grato com o acolhimento dos garis. 

A vocês, meu “muito obrigado”. 

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