20/07/2021 às 13h04min - Atualizada em 20/07/2021 às 13h04min

​Meu papo com Jaqueline, a revolucionária, no país careta e oportunista

A Jaqueline, nos anos de 1980, não fugia das perguntas embaraçosas

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria

 
 Com mais uma edição da Olimpíada, sinto vontade de falar de uma das ex-atletas que mais admiro, não somente pelo o que produziu nas quadras, mas também pelo o que proporcionou às novas gerações.  
 
 A Jaqueline, na minha ótica, foi a primeira grande revolucionária do esporte brasileiro. Baixa para os padrões (1.70) e, algumas vezes, acima do peso, compensava tudo com talento e técnica absurdos.    
  
A ponto de ser considerada, várias vezes (como na Olimpíada de Los Angeles), a melhor levantadora do mundo.   
  
Titular da seleção, onde ingressou aos 14 anos, nas Olimpíadas de Moscou (1980) e Los Angeles (1984), não abriu mão de sua veia libertária e protestou, com força, contra os atletas não terem direito à parte da verba que a confederação de vôlei ganhava com os patrocínios nos uniformes.   
  
Sem apoio dos seus pares, isolada, teve que migrar para o vôlei de praia. Com a parceira Sandra, “venceu tudo” nos Estados Unidos e na Europa e correspondeu às expectativas, conquistando a medalha de ouro na Olimpíada de Atlanta (EUA) em 1996.  
 
Por sinal, foram as primeiras mulheres brasileiras a conquistar medalhas de ouro em, até então, 100 anos de Jogos.   
  
Tive conversa bacana com a Jackie Silva (nome que adotou) lá no Shopping Vila Velha. Ela divulgava projeto nacional de escolinha itinerante. Embora contando com grandes patrocinadores, não deixava obscurecer sua visão crítica.   
  
Para ela,  campeões no Brasil, de modalidades olímpicas, eram tratados, na maioria das vezes, com descaso. Bastava passar aquele momento de “febre”, pós conquista.   
  
Investimentos no esporte eram pífios e a maior parte dos atletas acomodada. Premiação, com valores diferentes, para homens e mulheres, era símbolo incontestável do machismo.  
 
E, até mesmo, destacou, que a maioria dos patrocinadores era oportunista. Só aparecia em época de grande evento.   
  
A Jaqueline, nos anos de 1980, não fugia das perguntas relativas ao conservadorismo da sociedade brasileira. E geralmente suas frases causavam grande impacto. Na sua visão, o brasileiro era, sobretudo, “careta”.   
  
Na entrevista, indaguei se ela continuava com a mesma visão, 20 anos depois. Jackie foi direta ao ponto, exemplificando.   
  
Segundo ela, o brasileiro é controverso. No Carnaval, nos quatro dias, as pessoas curtem, quase peladas; namoram, fazem sexo, dão impressão que são liberais.  
 
Mas, bem no fundo, são extremamente conservadores e vigiam os costumes durante o ano todo.  
 
Hoje percebemos atletas do vôlei, que atuaram na mesma posição da Jackie, desdenhando das vacinas, com quase 600 mil mortos no país.  
 
Outros apoiando fascistas. E a imensa maioria calada, batendo palmas para seus dirigentes, envoltos, em grande número, em denúncias de corrupção. 
 
Ficamos tristes. Na verdade, perplexos. 
 
A Jackie continua autêntica, rompendo fronteiras. Casou-se, há alguns anos, com a bailarina Amália Lima, com quem namorava há mais de uma década. Bem antes de acontecimentos similares virar notícia na grande mídia. 
 
Então, que seja feliz a grande guerreira!  
 

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