10/08/2021 às 10h20min - Atualizada em 10/08/2021 às 10h20min

Treze anos depois, a passagem de Sávio pela Desportiva

Educado, pontual nos treinos, atencioso, Sávio se mostrou grande profissional

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Após deixar a Desportiva, Sávio foi esfriar a cabeça no Anorthosis Famagusta, do Chipre, e encerrou a carreira no Avaí, de Santa Catarina, onde reside até hoje. Foto: Peter Falcão.

 

O Sávio foi revelado nas categorias de base da Desportiva. Fez belas exibições na Copa A Gazetinha (não tão quanto o irmão Helinho) e acabou na base do Flamengo, aos 14 anos, onde brilhou e se transferiu para o Real Madrid.  

 

Depois, defendeu as cores do Bordeaux, da França; e também do Real Zaragoza e Real Sociedade, da Espanha. O craque, nascido em Vila Velha, vestiu, em algumas ocasiões, também a camisa da seleção brasileira, em amistosos e competições oficiais (Olimpíadas de Atlanta 1996, Copa América do Uruguai de 1995 e Copa Ouro dos EUA de 1996). 

 

Se desligou do Levante, da Espanha, e acertou sua transferência para a Desportiva, em 2008, clube que a Pauta Livre assessorou durante quase três anos. 

 

Já havia feito entrevistas com o Sávio, principalmente quando descansava no Estado em suas férias. E fiquei, devo confessar, assustado com sua, digamos, coragem ao ingressar no futebol capixaba, naquele momento, de clubes falidos, pouca gente nos estádios, espaço irrisório na mídia, e muitos protestos em relação ao gerenciamento do futebol no Estado por meio da federação. 

 

Mas ele chegou e trabalhamos lado a lado. O Sávio veio para incrementar o futebol capixaba. Pode acreditar. Ganhava, pelo menos, dez vezes mais no Levante e contava com mercado lá fora, embora já tivesse sofrido várias contusões. 

 

Como foi revelado na Desportiva, achava também que poderia ajudar o clube e fazer feliz alguns amigos e familiares. 

 

O seu pai, o saudoso Seu Mazinho, falecido anos antes, sonhava em vê-lo jogando novamente na Desportiva. Sávio era muito ligado a ele, pessoa extremamente carismática. 

 

A entrevista coletiva, na sede da empresa patrocinadora, foi concorrida e teve gafe gritante. Radialista conhecido, perguntou, ao técnico Cosminho, se a Tiva seria “Sávio e mais dez”. 

 

Cosminho esperou alguns segundos para responder, olhando fixamente o interlocutor, perplexo com a, digamos, falta de sensibilidade na indagação. No ar imperaram, lembro até hoje, gargalhadas abafadas (e desconcertantes). 

 

O baile seguiu. No outro dia, cismaram de fazer a apresentação para a torcida no estádio, forma de divulgar o patrocinador. Sávio, aparentemente, não se empolgou muito. E tinha razão. 

 

Era tradição na Europa, que quiseram repetir aqui. Se tivessem me consultado, vetaria na hora. O torcedor capixaba, definitivamente, não lotaria o estádio em uma quinta-feira à tarde para receber alguém de carne e osso. E foi o que ocorreu. 

 

Como poucos torcedores apareceram, para evitar constrangimento, me solicitaram solução. Sugeri a interrupção dos treinos dos garotos da base. A ideia era trazer todos, incluindo as comissões técnicas e os seus familiares, para ocupar as cadeiras numeradas. Foi feito. Se evitou a saia justa?  Acho que não. 

 

Mesmo assim, a apresentação foi bem recebida pela imprensa. Sávio, após bons treinos, foi escalado para o clássico contra o Rio Branco, no sábado à tarde, pela nona rodada. A cidade parou. O dia do jogo (23 de fevereiro) foi marcado por muita chuva, o que não impediu a lotação completa do Engenheiro Araripe. 

 

A Desportiva foi mal e acabou derrotada pelo Rio Branco (gols de Rigoberto e Kill) por 2 a 0. 

 

No jogo seguinte, em cidade do Norte do Estado, o vestiário estava com lâmpadas queimadas, banheiro sujo e os jogadores grenás ficaram por ali mesmo no gramado, no intervalo, recebendo instruções na mureta, sem ingressar no recinto, sob calor avassalador, em mais um “horário de verão”. O Sávio era um deles. 

 

Naquele estádio, não raramente, dirigentes da federação e árbitros deixavam a cidade em camburões. Desportiva amargou mais uma derrota. 

 

A Desportiva venceu o jogo seguinte. Atuando em casa, fez 3 a 0 no CTE Marilândia. 

 

Educado, pontual nos treinos, atencioso, Sávio se mostrou grande profissional, mas começou a sofrer revezes. Dizem que jogador passava para a imprensa situações vividas nos vestiários.  Caso flagrante ocorreu na derrota por 3 a 2, para o Colatinense, jogando fora. 

 

No outro dia, periódico da capital, trouxe diálogos reveladores e com riqueza de detalhes. O projeto começava a minar. 

 

Comenta-se também que o craque teve conflitos diretos com parte da diretoria que não conectava com a outra. 

 

Não entrarei no mérito. Lembro de partidas de amplo domínio do time, que resultaram em derrotas doloridas devido às falhas individuais, quando o cronômetro apontava minutos finais. São elas: 0 x 1 para o Linhares e 1 x 2 para o Jaguaré, ambas em pleno gramado do Araripe. 

 

O atacante Vinícios, velocista com quem Sávio compunha o ataque ao lado de Zé Afonso, teve lesão na coxa e acabou sacado do time quando o trio começava a entrosar. 

 

Definitivamente, o time não encaixou. Sávio introvertido e o elenco meio que assustado com a presença dele. Era, convenhamos, natural o contraste.

 

Sávio, que jamais reclamou da estrutura do clube, só pediu para não ser relacionado quando o time não tinha mais nenhuma chance de chegar às semifinais.  

 

Sobreviveu a ambiente estranho, sem mostrar soberba. Fez seis gols em nove jogos. Foi artilhero do time ao lado de Vinicios. A Desportiva terminou na antepenúltima colocação (8º). 

 

O reingresso do Sávio ao futebol capixaba teve matérias no site do Real; no jornal ÁS, um dos principais, ligados ao esporte de Madrid, e de muitos periódicos e sites nacionais. 

 

Mais de década depois, tenho certeza de que houve precipitação geral. Do Sávio, da Desportiva e de quase todos ligados ao futebol. 

 

Ninguém soube extrair o melhor do jogador e da figura pública do Sávio, que, ao mesmo tempo, não estava preparado para sobreviver no abissal oceano das realidades no qual foi lançado, ou melhor: se lançou. 

 

Mas, tenho certeza da boa intenção dele e de quem o trouxe (Doutor Marcio Almeida). 

 

Após deixar a Desportiva, Sávio foi esfriar a cabeça no Anorthosis Famagusta, do Chipre, e encerrou a carreira no Avaí, de Santa Catarina, onde reside até hoje. 

 

Gracias amigos pela atenção! 


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