03/09/2021 às 11h23min - Atualizada em 03/09/2021 às 11h23min

Morre Sérgio Mamberti aos 82 anos

O ator tornava grande cada papel que interpretava

Folha Vitória
Eterno doutor Victor do Castelo Rá-Tim-Bum, Sergio Mamberti morre aos 82 anos. Foto: Divulgação Web.

O ator Sérgio Mamberti, eternizado como doutor Vitor, do Castelo Rá-Tim-Bum, morreu, na madrugada desta sexta-feira, 3 aos 82 anos. Ele estava internado em um hospital de São Paulo, na unidade de terapia intensiva (UTI).

Na quinta-feira, 2, Fabrício Mamberti, diretor da Globo e filho do ator, declarou  à colunista Patrícia Kogut que o quadro clínico do pai era bem delicado.

O caçula de Sérgio contou que a nova internação ocorreu por consequência dos remédios necessários para combater a pneumonia que acometeu o ator em julho deste ano, e que sobrecarregaram seus rins. 

- Este ano tem sido duro para ele. Já teve três internações. Na penúltima [em julho], teve uma pneumonia, resolveu e voltou para casa. Mas foram muitos remédios, e isso acabou afetando um pouco os rins dele. Ele passou três semanas em casa e começou a ter disfunção renal, o que alterou a pressão. Novamente, teve que voltar para a UTI. E, como fica numa posição sem muito movimento, novamente o pulmão começou a ter água e, com isso, se formou uma nova pneumonia.

Além dos dois problemas apontados - que acabaram exigindo a intubação do ator veterano -, Fabrício conta que a musculatura do pai também passou a sofrer a consequência das internações:

- A parte da musculatura, essa coisa de ficar muito tempo na cama, começou também a pegar. Ele teve que ser intubado no sábado. A gente já tentou extubar na segunda-feira. Eles agora estão trabalhando nessa parte da musculatura. Mais uma vez, a pneumonia já foi tratada.

Sérgio Mamberti: um causo

Sobre o Living Theatre, grupo de teatro de vanguarda fundado ha mais de 45 anos em Nova York por Julian Beck e Judith Malina. Pioneiro do movimento off-Broadway nos anos 50, conquistou a Europa no inicio dos 60. Teatro experimental, político, e tomado como exemplo de contestação, de ação não-violenta, de aspiração libertaria.

“Eles chegaram aqui no inicio dos anos 70, com uma visão lisérgica da política. Vieram pra Ca a convite do Teatro Oficina, do Zé Celso Martinez Correa, porque a Europa estava velha, e visualizavam o Brasil como uns pais com perspectivas de futuro. Vieram literalmente trazer a palavra, imbuídos de um espírito messiânico mesmo. São que chegaram aqui e desbundaram com a realidade brasileira. Uma das coisas que eles priorizavam em seu discurso era a questão da liberação sexual.

Eles diziam que não se podia falar de uma política libertaria, sem se falar primeiro da liberação sexual. A fonte da repressão era exatamente a sexualidade, da qual derivava toda a repressão política. Uma visão meio marcusiana, com influencia das filosofias orientais, movimento beat americano e toda a contracultura.

Eu me lembro que o Julian Beck estava subindo a escadaria, ali do lado do Teatro Ruth Escobar com a filha no colo, quando eu o vi pela primeira vez. Ai eu falei: “Julian Beck” e ele me disse “sim”, com aquele ar de profeta, parecia uma visão de Moises. Dei um abraço forte e um beijo na boca do Julian para lhe desejar boas vindas ao nossos pais.

Ele levou o maior susto. Pelo simples fato de eu tocá-lo, ele já se assustou. Na verdade, essa coisa do toque no Brasil e bastante corriqueiro. A gente tem esse habito, mas na época isso estava bem mais exacerbado, quase uma atitude emblemática.

Tempos depois, quatro membros do Living foram morar em minha casa e ai tem uns causos interessantes. O Julian e a Judith moravam em outra casa, mas o grupo inteiro estava sempre La conosco. Meus pais e os pais da Vivian, minha mulher, por exemplo, ficaram com medo de vir a minha casa. Quando eles se instalaram La, fizeram tendas. A minha casa passou a ser um centro da contracultura em São Paulo. A minha Internet era o movimento hippy, pois meu endereço estava espalhado pelas agendas da contracultura no mundo e a toda hora chegavam essas visitas a minha casa.

Quando o Living foi preso, em 72, a polícia dizia que era porque eram maconheiros, mas vejo essa prisão como política. Eles foram denunciados por um padre de uma comunidade perto de Ouro Preto. Participamos de um movimento pela libertação deles, assim como fazíamos pelos presos políticos, e fomos para o julgamento do Living em Ouro Preto. A Vivian, o Paulo Augusto, a Bocha, uma uruguaia maravilhosa, louquíssima, e a Ruth Escobar, que foi de avião. Nos fomos de ônibus. No caminho, vimos o ônibus do Living, que estava sendo escoltado por soldados armados. Trocamos gestos cifrados através das janelas, pois tinha policia também dentro do ônibus deles. Chegamos a Ouro Preto e não queriam nos deixar entrar no Fórum, mas ai a Ruth passou pelos soldados e eles se perfilaram. Enquanto eles se perfilavam, nos entramos correndo.

No final, o juiz acabou permitindo que a gente assistisse ao julgamento. O Living estava emocionado com a nossa presença. Estavam presos ha quase dois meses e estavam saudosos de verem pessoas amigas, pois ninguém podia visitá-los. Nessa época, Ouro Preto era um centro de cultura hippy, tinha um festival de inverno em que toda a contracultura do Brasil se reunia. Lembro que as pessoas ficaram na porta do Fórum e a gente saiu na sacada com o Living. Como não se podia falar nada, ficamos fazendo sinais de “paz e amor” e todo mundo entoando La embaixo a musica do John Lennon, “Power to the People”. E era uma coisa super emocionante. Uma tarde em Ouro Preto e de repente todo mundo se comunicando através dessa canção e do gesto”.
 
 

 


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