09/12/2021 às 19h53min - Atualizada em 09/12/2021 às 19h53min

O reinado da intolerância

Marcar posição importa mais que sensatez

- Everaldo Barreto Moura é Pensador e professor de Filosofia
Filosofia na Veia
As fontes de informação são tão diversas que o cidadão comum, mediano, não tem mais referência de segurança da informação. Foto: Ilustração Web.


Estamos assistindo um retrocesso, na forma de encarar o mundo e o outro, que nos remete a tempos medievais.

A dialética, como entendimento pelo diálogo, “entre homens interessados em alcançar a verdade”, tem sido sucateada no Brasil e, em seu lugar, tem retornado o domínio da opinião “DOXA”.Embora o embate - opinião x conhecimento - esteja vencido a mais de dois mil anos, tomando como referência a era socrática e a celeuma entre filósofos e os sofistas, o povo brasileiro está imerso nesse retorno insensato.

A velocidade de trânsito da informação instituída pela internet, embora represente um grande progresso na vida humana, também proporciona grandes estragos. As fontes de informação são tão diversas que o cidadão comum, mediano, não tem mais referência de segurança da informação. 

Esta chega até a ele por meio de vários canais, não obrigatoriamente oficiais, muitas vezes são confundidas, até mesmo as redes sociais, como fontes de “informação segura”.
Somando-se a isto as reviravoltas da política, com os “sofistas modernos” assumindo o poder, a coisa piora muito. O “convencimento da verdade” se dá por construção completamente descompromissada com argumentos, eivada de pré-juízos e pré-conceitos, chegando mesmo a descredenciar a educação e busca do conhecimento, como temos visto nos ataques de fundamentalistas à profissionais da educação, especialmente explícitos em Vitória,protagonizado por agentes públicos com invasão de salas de aula, exposição de professores e suas didáticas, etc.

Nessa inversão de valores a propriedade sobre o assunto fica em segundo plano, a todas as questões se põe fundamentos outros, que não os próprios da área, valendo-se sempre da ideologia e da opinião contrapondo o conhecimento, a ciência e até o bom senso.

Os estragos dessa conjuntura anômala são tão perversos que no âmbito da saúde custou inúmeras vidas, da educação um retrocesso enorme que aumentou muito o abismo já existente entre as classes sociais e nas relações humanas provocou um embrutecimento do diálogo que resultou na intolerância a qualquer nuance de diferença.

Retomar a evolução da mentalidade de nossa gente, no sentido de melhorar a visão da alma coletiva, ou seja, do ossoethos, para além das visões de casta em suas opiniões, precisa de um esforço bem estruturado, mas temo que só poderá ser efetivo pós a derrubada do atual governo e ainda assim, precisará ser seguida de uma faxina ideológica, que recoloque no lugar as instituições e seus fundamentais papéis sociais, para a promoção da vida com a liberdade a que o ser humano é condenado.

Desconstruir o reinado da intolerância e reestabelecer a sensatez no convívio social com a diversidade própria dos humanos, reestabelecer a prevalência do conhecimento para base das opiniõese atitudese respeitar a evolução do pensamento humano precisa voltar a ser o percurso natural de nossa sociedade.

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