18/01/2022 às 17h00min - Atualizada em 18/01/2022 às 17h00min

O homem e a mulher de bem estão de férias?

- Everaldo Barreto Moura é pensador e professor de filosofia
Filosofia na Veia
Foto: Ilustração DDC News


A maioria das pessoas quer férias em janeiro, seja pelo calor da estação ou pelo recesso da educação, com a consequente liberação das famílias que têm filhos em idade escolar. Um país com um imenso litoral como o nosso facilita um casamento feliz, entre as férias e a praia.

Aqui “na terrinha”, recebemos visitantes das mais variadas localidades e temos a oportunidade de, em nosso cotidiano, conviver e observar o comportamento despojado do visitante.

Nos balneários capixabas, naturalmente saturados com a explosão de pessoas na temporada do verão, está o cidadão de bem: desprendido das amarras de sua rotina, dos compromissos formais e profissionais, solto, gozando suas férias.

Gostaria de convidar à reflexão sobre a relação desse desprendimento e dessa soltura toda da rotina, com a autolibertação dos códigos morais e procedimentos éticos da vida em comunidade. Isto por que, vivendo em balneário, estou sempre percebendo esse comportamento que pode não ser da maioria, mas é recorrente. Para exemplificar trago como ingredientes: desde os “amores de verão” comuns à juventude, muitas vezes ocorridos à revelia dos relacionamentos que têm em suas cidades, estendendo ainda à população mais madura, em seus afrouxos morais, com as regras do trânsito, o cuidado com as outras pessoas, com as palavras, o lixo e até as crianças.

De alguma forma a suspensão dos compromissos formais da rotina acaba gerando uma sensação de liberação de compromissos em geral e tudo aquilo que a pessoa faz por obrigação ela sente – eu arriscaria dizer que inconscientemente - a possibilidade de suspender.    

Ipso facto, podemos questionar: é possível dar férias ao ser educado, moral e ético? É o sujeito moral e ético resultado de seu convencimento de melhor viver, ou produto do imperativo categórico kantiano?  “DEVES POR QUE DEVES”

Naturalmente esses questionamentos levam a um outro e ainda mais profundo: A vida coletiva, sempre regulada pela alteridade ou “outridade”, é uma opção espontânea ou um esforço para o sujeito?

Retornando à Kant, “Deves por que deves” ou por que “queres”? Afinal, o sujeito constrói o Estado ou o Estado constrói/modula o sujeito e o adjetiva com a cidadania?

São muitas perguntas que inspiram a reflexão maior de que acabamos nos perdendo – essencialmente - frente a um Estado castrador, corrompido por uma política hipócrita em que o “Todo poder emana do povo” é uma falácia, no qual pessoas vivem por obrigação e necessidade, mas cultivam o momento de férias em que, longe de seus territórios de referência, podem se sentir mais livres e donos de seus atos.

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