08/02/2022 às 06h52min - Atualizada em 08/02/2022 às 06h52min

A arte, o tempo e a ética

De quando o tempo torna feio o que antes era bonito

- Everaldo Barreto é pensador colatinense e professor de Filosofia.
Filosofia na Veia
Foto: Ilustração Web.

A reflexão que levou o cantor, compositor e literata Chico Buarque de Holanda a declarar que não cantará mais sua composição "Com açúcar e com afeto", tomando por base o argumento do movimento feminista de condenar a composição por ser machista, traz a necessidade de enfrentamento das questões que envolvem as mudanças no "ethos" social de um povo, ao mesmo tempo em que exige um olhar diferenciado para os novos valores de todo dia.

Na Filosofia, Aristóteles, aquele considerado "O Filósofo", sofre constantes ataques por ser considerado escravagista, mesmo tendo vivido e filosofado num tempo em que a escravidão era inclusive moeda de troca utilizada no pagamento de dívidas.

Nesses nossos novos tempos e as compreensões neles construídas, desde o século das luzes, agora intensificadas com a utilização das novas mídias no advento da internet, a velocidade/popularidade que a informação adquiriu expandiu um senso comum esclarecido e, por que não dizer, vigilante de condutas.

Naturalmente, estamos falando da evolução da consciência humana, principalmente voltada ao compromisso ético de respeito e consideração à diversidade. Sabemos também que esse amadurecimento vem corrigindo uma conduta social proveniente dos horrores da supremacia de povos sobre povos, castas, etc., que desenvolveram as condutas opressoras dos mais fracos, dentro do contexto social, lhes impondo valores que intensificam e fortalecem essa diferença.


Dito isto, quero agora chamar à reflexão da utilização do que vou chamar de: conceito novo para a produção velha. Entendo que o conceito novo vem para o tempo novo, enquanto a produção velha obedeceu ao "ethos" do seu tempo, naturalmente se julgada pelo conceito novo, pode ser injustiçada por desobediência de um critério que não existia no momento de sua criação. Isso não pode tirar o mérito de sua criação como expressão de um espaço/tempo em que foi produzida.

A mulata, que sempre se sentiu lisonjeada com a expressão, ser assemelhada à mula pelos intelectuais pensadores do novo momento, chega a ser uma covardia para aquelas mulheres que se posicionaram e se posicionam no termo, sempre com muito orgulho. Da mesma forma que o Neguinho, seja da Beija Flor ou o amigo querido, não pode ser sempre visto como ofensa.

A mesma discussão abrange também a mudança na gramática para incluir a diversidade sexual e de gênero com a utilização do "todes" ou, mais recentemente ainda "tods". Pode e é bom que seja usado para ressaltar o direito de visibilidade de minorias, mas não pode ser exigido de todos (todas e todes), até por que existem as regras gramaticais da língua portuguesa, viva e abrangente a vários países.

As mudanças devem ser fruto de discussões mais amplas e profundas envolvendo mudanças éticas e culturais, que sabemos serem lentas.


Toda essa polêmica está cada vez mais latente e, excluindo do contexto a utilização maliciosa e proposital que seria a ação ou criação machista, racista ou discriminadora presente, a consideração do tempo como "compositor de destinos" precisa trazer plausibilidade entre a discussão culta e politizada e o cotidiano popular, para que como um "Tambor de todos os ritmos", o tempo seja referência do que foi criado, do que está sendo e do que ainda vem por aí, considerando cada um em seu tempo.

 


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