10/12/2019 às 09h12min - Atualizada em 10/12/2019 às 09h12min

Chico Caruso completa 70 anos de idade e 35 de Globo

Mestre da primeira página, chargista ‘traça’ o país a limpo com olhar afiado e muito humor

Jornal O Globo
Chico Caruso faz 70 anos. Foto: Leo Martins / Agencia O Globo Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Quando Chico Caruso publicou sua primeira charge no GLOBO, em 1984, o Brasil ainda vivia sob uma ditadura, o general João Figueiredo estava no poder, e as ruas gritavam por Diretas. Trinta e cinco anos e nove presidentes depois, o desenhista que ficou famoso por traçar crônicas agudas e bem-humoradas do país diz que não tem do que se queixar.


— Para o humorista está mais fácil — defende. — Quanto mais ridículo o momento, mais ideias...

Chico festejou 70 anos na última sexta-feira, 6. Comemorou em família, ao lado do irmão gêmeo, o também desenhista Paulo Caruso, e de uma legião de amigos. Ontem, celebrou na Redação, com colegas de várias gerações.

— Passei metade da minha vida aqui — lembra ele, um paulistano que virou carioca por adoção, após chegar ao Rio em 1978, trazido pelo chargista ítalo-carioca Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini, o Lan.

O amigo trabalhava no “Jornal do Brasil”, ia fazer uma cirurgia e decidiu indicar Chico para substituí-lo.

— Havia outros nomes, mas tinha que ser ele — conta Lan. — Já naquela época, reunia todas as características da caricatura pura. Mesmo sendo de São Paulo, ele representa o que há de melhor no Rio, o bom humor.

Anos depois, surgiu o convite para O GLOBO, onde Chico propôs ao jornalista Roberto Marinho fazer charges para a primeira página. A partir daí, Chico se tornou “o maior caricaturista do globo (com g minúsculo)”, como brincou Millôr Fernandes, ao falar do amigo, há 15 anos.

— Lembro do Dr. Roberto abrindo o jornal na minha frente, em uma grande mesa. Aí percebi o quanto eu gostava disso ( do jornalismo ). Somos viciados. Leio quatro jornais por dia. É como segurar uma floresta nas mãos. Só que as florestas não têm notícias, o que é uma desvantagem para elas


Fazer 70, porém, ele diz, foi “um choque”.

— Os 30 já tinham sido difíceis. Mas 70 anos... aí já é jogo duro — brinca, para emendar, sério. — Nos últimos anos, amigos se foram. Tônia Carrero, Millôr Fernandes, Paulo Casé... Mas é um desafio. Sempre se encontra um novo entusiasmo a cada dia.
 

Chico Caruso tem um hábito incontornável. Ler minuciosamente o jornal. Fica até quatro horas mergulhado nas notícias. E morre de preocupação quando não consegue ler direito (“Parece que perdi alguma coisa”). As ideias para as charges surgem a partir daí, num processo de maturação. Depois de alguns esboços, ele leva uma hora e meia, no máximo, para fazer o desenho final.

— Enquanto leio, vou botando as ideias numa panela de pressão — compara. — Aí, depois que elas cozinham na minha cabeça, começo a rabiscar.

A ideia para a charge de hoje foi definida por volta das 19h, cerca de três horas antes de a primeira página do jornal ir para a gráfica. Ela mostra uma situação clássica de Chico: a saia justa. No caso, a que o vice-presidente Hamilton Mourão deve enfrentar hoje na posse do presidente argentino, Alberto Fernandez, e de sua vice, Cristina Kirchner — dois desafetos de Jair Bolsonaro. No desenho, o general faz de tudo para não fitar Cristina.

Chico é conhecido por sua rapidez — “é impressionante como ele pode ser tão veloz e tão bom”, diz Ziraldo, que trabalhou com o colega no “Jornal do Brasil”. A primeira charge de Chico no GLOBO, publicada no dia 2 de fevereiro de 1984, é bem representativa desse talento. Onze personalidades políticas da época, de José Sarney a João Figueiredo, passando por Delfim Netto (este, uma das figuras políticas mais retratadas pelo chargista, segundo seus próprios cálculos) e Luiz Inácio Lula da Silva, aparecem agrupadas como um time de futebol.

 
“A partir de hoje, este time e muitos outros personagens de Chico Caruso estarão diariamente no GLOBO”, anunciava a primeira página do jornal. Nada menos do que 11 caricaturas reunidas em um mesmo desenho. Uma amostra da facilidade com que captura a essência de cada um de seus retratados.

— O Chico desenha sem olhar para a pessoa — observa o cartunista Jaguar, um velho amigo. — O olhar dele é sempre vago, e ele registra tudo. Não hesita. Se tem 20 pessoas numa sala, ele vai desenhar as 20, mais a planta ao fundo. Ele olha tudo como uma coisa só e transmite.

Transtorno caricatural

Jaguar, que tem vários desenhos do amigo pendurados nas paredes de casa, lembra de quando foi almoçar com ele em um restaurante com toalha de mesa de papel. Chico o retratou ali mesmo, na toalha, e Jaguar se apressou em salvar a “relíquia”.

— Pedi para guardarem a toalha e enquadrei. Meus herdeiros vão vender por uma fortuna daqui a uns 30 anos — diz, divertido.

Marcar presença todos os dias, e na primeira página, é uma responsabilidade que os amigos sublinham. É a primeira coisa que o chargista Claudius checa quando pega o jornal:

— A gente olha, diz “esse sacana é genial!” e fica esperando a próxima, pois os tempos são propícios aos humoristas, graças a esse inacreditável ministério bufo que nos assola — diz.

Ao ingressar no GLOBO, há 35 anos, Chico foi atraído pela possibilidade de fazer charges coloridas (sua segunda já foi em cores), uma vez que “de preto e branco já basta a vida”, diz ele. Embora não se considere um “grande colorista”, seu uso do recurso influenciou mais de um desenhista.

— O traço apenas esboçado no lápis, as pinceladas aquareladas, puxando a própria tinta do traço, o lápis de cor por cima nos efeitos e luzes... É um barato. Uma aula — diz Aroeira, que trabalhou com o mestre no GLOBO, uma experiência que ele compara a uma “pós-graduação”. — Muito antes de conhecê-lo eu já o copiava. Nunca tinha feito uma caricatura na minha vida, e, quando precisei, a referência foi o Chico. Acabei por desenvolver minha própria via, mas comecei por ele e suas soluções geniais, de desenho e de ideias. Tinha de ser assim, ele chegou arrebentando, modificando completamente a cara da charge brasileira.

É impossível falar de Chico sem falar de Paulo, caricaturista do programa “Roda Viva”, da TV Cultura, que já trabalhou na revista “Isto É” e no “Jornal do Brasil” (“Ele é meu irmão gênio”, costuma brincar Paulo).

— Tem gente que acha que o Chico é que faz o “Roda Viva”. Mas também já me confundiram c om o Marcos Caruso ( o ator ) — conta ele.

Os dois começaram a desenhar com a mesma idade, “lá pelos 4 ou 5 anos”, lembra Paulo. Também iniciaram suas carreiras de cartunista ao mesmo tempo, em 1967. Tamanha proximidade faz Chico brincar com o marco de 52 anos de profissão de cada um: ele prefere falar em 104 anos.

— É que meu irmão tem delírio de grandeza — faz graça Paulo. — Eu e ele sofremos do mesmo mal, o TOC: Transtorno Obsessivo Caricatural. Eu sou mais prolixo, meu desenho é carregado de textos e imagens, enquanto o dele é mais enxuto. E é isso desde garoto. Na época, enquanto eu desenhava milhares de personagens, sons e falas se entrelaçando, ele só fazia um revólver e a uma bala voando.

Outra diferença é a visão sobre os tempos atuais. Enquanto Chico vê um copo cheio, para Paulo, a profissão está mais difícil, já que a realidade anda muito mais expressiva do que qualquer caricatura.
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