14/02/2020 às 05h21min - Atualizada em 14/02/2020 às 05h21min

Ainda bem que gritamos: Te amaremos para sempre, Belchior

- Peter Falcão
Tenho vinte e cinco anos De sonho e de sangue E de América do Sul Por força deste destino Um tango argentino Me vai bem melhor que um blues
O Belchior entrou em minha vida de forma fulminante.

Tinha dez anos quando seus primeiros sucessos ecoaram nas rádios.

Os versos atingiram meu fígado, bem antes do álcool, que também me tocou de forma definitiva, aos 16.

Talvez tenha sido o primeiro artista da música que me fez pensar e que abriu as portas, no meu universo suburbano, para Caetano, Gil e Chico.

O Rei, o de Cachoeiro, tocou-me, bem novinho, também, mas o coração e me fez apaixonar pelas meninas.

Por isso, talvez, gosto dele até hoje. Fodam-se as patrulhas.

Conquistei minha primeira e única namorada soprando em seus ouvidos versos do Belchior. E alguns do Caetano, tenho que ser sincero.

Com os dois juntos, fui implacável. E estou com ela até hoje. Já se vão 28 anos.

Sou do Sudeste, de Vitória, mas o Belchior me projetou incisivamente para dentro do mundo de quem vem lá de cima para o lado de cá.

E como eu amo esta gente! E tenho, em dobro, o carinho devolvido.

Ele fez versos de delicadeza cortante. Não há como ouvir e não se tocar.

Nem o mais frio dos homens ousaria passar imune.

Pois bem: Em Itapoã, Vila Velha, o Bosque Bar anunciou show do Belchior.

Nos animamos, Dalva, na época minha namorada, e eu, de conferir.

Ainda mais porque em dez minutos poderíamos estar em casa, tranquilos, após o show, em Coqueiral de Itaparica.

Compramos ingressos, assim como fez a Nilzete, querida amiga e secretária do Paulo Torre, diretor de Redação do jornal A Gazeta.

Cheguei cedo no Bar da Conceição, ao lado do jornal, para esperá-las. Acho que isso foi lá pelos anos de 1998.

Quando chegaram, bebemos um bocado de cerveja até seguirmos para Vila Velha, cruzando a Terceira Ponte no Fuscão cinza da Dalva, guerreiro toda a vida.

Os relógios apontavam 21 horas, horário previsto para o show.

E nada do rapaz latino americano sem dinheiro no banco aparecer.

As 22 horas ele surgiu, com o violão em punho e mais ninguém ao lado.

Nossa mesa, não sei por milagre de qual santo, ficava a quatro metros, se tanto, do “palco”, ou melhor: tablado.

Belchior, lindamente, fez ferver o violão.

No ar, o cheiro interminável de batata frita, perfume barato, picanha, desodorante vencido e La Nave Va.

Ouriçada, muita gente fez fotos a dois metros, se muito, dele, que resistiu bravamente.


Durou 30 minutos o show do Belchior.

Tive impulso de tirá-lo dali várias vezes. O seu rosto estampava tristeza e melancolia.

Nos nossos corações constatávamos punhal encravado e o sentimento de criança quando observa herói abatido definitivamente no capítulo final.

Ainda bem que segurei a mão da Dalvinha, vencemos os seguranças, corremos até atrás do palco e gritamos bem alto: “Te amaremos para sempre, Belchior”.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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