28/02/2020 às 08h04min - Atualizada em 28/02/2020 às 08h04min

A palavra mais linda do dicionário é gratidão

- Peter Falcão
Peter Falcão - Jornalista
Foto Peter Falcão

Mais de meio século de vida nos ensina a não esperar muito das pessoas.

 

Mas, paradoxalmente, na reta final da existência, este músculo de sentimentos confusos, que bate no peito, nos empurra a trair a racionalidade.

 

Então vamos seguindo, como se diz, entre a cruz e a espada.

 

Na pracinha, “enxugando” umas latinhas, vi menina se espatifar do balanço. 

 

Em sua testa apareceu galo tão grande que assustaria até vigia de cemitério.

 

No impulso, fui oferecer gelo, destacando para sua mãe que era filtrado (na verdade, nem sabia se era).

 

Ela me olhou, com relativo desprezo, e disse que não precisava. Voltei para minha cadeirinha, com o rabo entre as pernas.

 

Por falar nisso, na semana seguinte, apareceu cachorrinha linda perto dos meus pés, com metro de língua para fora. Chegou a lamber latão que estava na grama, geladinho. 

 

Perdoei o sacrilégio e ofereci água, que levo sempre, mesmo não “usando”.

 

Enfiei, solícito igual prostituta no final da noite, a mão na sacola para pegar copo de plástico.

 

A madame, com peitões de silicone e mais fria que iceberg, não aceitou. Deixou cachorrinha com sede. E olha que, desta vez, a água era filtrada.

 

Dormi confuso. Se é que dormi.

 

Jardim Camburi, às vezes, cansa pela falta de empatia das pessoas. Mas, sigo em frente. Escrevendo mal traçadas crônicas.

 

A caminho do escritório achei carteira de motorista. Fui pesquisar no catálogo telefônico, cheio de poeira. 

 

Dei três ligações e localizei o dono. Era caminhoneiro de Ibiraçu, que fazia entregas no comércio do bairro.

 

Marcamos encontro, naquele mesmo momento, e entreguei-lhe o documento, próximo ao Salesiano. O senhor, pai de família, quis me dar dinheiro: cinquenta pilas. 

 

Não aceitei. Ele ficou perplexo. Apertou minha mão e foi embora, visivelmente emocionado.

 

Atualmente estamos latindo à noite, como se diz, para economizar o cachorro, mas naquele ano, ainda sobrava algum, e, passamos, com dois sobrinhos, lá do Pará, a virada de ano em Guarapari.

 

Nos preparávamos para curtir praia, tocou o celular. Pensei: “algum pepino me aguarda em Vitória”.

 

De jeito nenhum: o caminhoneiro ligou, no primeiro dia do ano, meses depois, para desejar Feliz Ano Novo e agradecer pelo o que fiz no ano anterior.

 

O telefonema preencheu minha alma durante todo o ano. Ele nem imagina o bem que me fez. Muito mais do que o fiz, certamente. 

 

Voltei, de certa forma, a acreditar na boa vontade alheia.

 

E aprendi que a palavra mais linda do dicionário é gratidão.

 

Não é mesmo?

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