17/03/2020 às 20h31min - Atualizada em 17/03/2020 às 20h31min

Após acidente, tudo o que Lars Grael queria era falar aos capixabas

Por Peter Falcão - Peter Falcão
O jornalista Peter Falcão entrevista o velejador Larls Grael

Na ocasião estava em Alto Liberdade, o mais bonito distrito de Marilândia, curtindo férias com minha mulher e seus familiares. 


Exagerava no consumo de cerveja dia sim e outro também. Soube, não sei exatamente como, sobre tragédia ocorrida com Lars Grael, medalhista olímpico de bronze em 1988 e 1996. 


Minha cabeça entrou imediatamente em parafuso. Considerei o fato absurdamente irreal.


Para quem não lembra, ele teve perna direita mutilada por iate enquanto treinava na Baía de Vitória para etapa do Brasileiro de Vela, dentro da programação comemorativa pelo aniversário da capital. 


O fato ocorreu em setembro de 1998 e comoveu o mundo. Comenta-se que o piloto namorava ao mesmo tempo que a lancha navegava no automático.


À noite assisti a todos os noticiários e no outro dia, bem cedinho, corri na rodoviária para disputar um dos exemplares de A Gazeta. 


Na estrada mesmo, voltando de carro, conferi as fotos do amigo e grande parceiro de incontáveis jornadas, Gildo Loyola. Como sempre, o Mestre seguiu sua intuição infalível e chegou uma hora antes do previsto no Iate Clube. 


Suas fotos, contundentes, do medalhista olímpico na maca, ilustraram capas de periódicos de todos os estados brasileiros e diversos países.


Eu permaneci bebendo minhas cervejas, enquanto Lars lutava contra a morte. 


Coincidentemente voltei à labuta exatamente no dia que ele teve alta. Ao chegar na redação já estava lá a pauta para ouvi-lo. O fígado não ajudava muito, mas tive que me mover em busca da entrevista. 


Pedi ajuda a colegas da redação e o saudoso Nilo de Mingo, que tinha a agenda mais completa do jornalismo capixaba, me forneceu o telefone do Axel Grael, irmão do Lars. 

 

Com apoio das telefonistas consegui falar com o Axel, que me pediu para ligar 40 minutos depois. Foi o que eu fiz, mas desta vez quem me atendeu foi o Lars. 

 

Tinha anotado no bloquinho dez perguntas. Lars, sem estrelismo algum, mesmo se recuperando da trágica situação, me concedeu entrevista linda e cheia de empatia.

 

Perguntei-lhe, dentre outras questões, se guardava alguma mágoa de Vitória. E ele disse: “Jamais. Amo Vitória e quero voltar para agradecer todo o carinho e solidariedade do povo capixaba”. 

 

A matéria “desceu redonda”. No outro dia foi para a primeira página, antes de o meu fígado curar por completo. Na outra semana foi capa também do Diário de Vitória, boletim oficial da Prefeitura de Vitória.  

 

Fiquei feliz por perceber que havia voltado das deliciosas férias ainda “competitivo”, vamos dizer assim. E também por, de certa forma, o medalhista olímpico isentar a capital de ato insano do rapaz endinheirado.

 

Meses depois, Lars foi convidado para ser secretário de Esportes pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O encontrei no Iate Clube (FOTO), em 2000, após cobrir a Paralimpíada de Sydney, para primeira entrevista pessoalmente. 

 

Fiquei encantado. Se equilibrando com ajuda de bengala, atendeu-me sem menor cerimônia. Não resisti e agradeci por aquela entrevista exclusiva feita logo depois de ele ter alta. 

 

Lars me olhou nos olhos de forma acolhedora e disse. “Eu quem agradeço. Tinha que mostrar aos capixabas que continuo os amando, apesar da tragédia que me abateu”.

 

Eu o olhei com humildade, me despedi e pensei: “Ninguém é medalhista olímpico por acaso”.

 

Eu estava certo. Não é mesmo?

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Quais são os piores motoristas de Colatina

43.6%
24.4%
32.0%
Moeda Valor
Servidor Indisponível ...