25/03/2020 às 07h53min - Atualizada em 25/03/2020 às 07h53min

Pombos bêbados mergulhavam de cabeça na praça, na minha descida ao inferno

- Peter Falcão
Foto Peter Falcão
Eu tenho amigo que adora banca de revistas. É o José Roberto Santos Neves. Se pudesse, apaixonado por leitura, moraria em uma.

Eu praticamente morei, dos 17 aos 18 anos, até passar na UFES para Comunicação Social, sem dúvidas, a melhor notícia da minha existência e de algumas mais encarnações.

Foi na época das Diretas Já. Adorava ver a Folha de São Paulo com tarja amarela estampada na capa.

Quando começava o tiroteio, o aconselhável era abaixar rapidinho as portas e deitar no chão da banca, torcendo para bandido e mocinho mudarem de ideia e interromper a treta.

É que a banca ficava no “Beco do Mijo”, aquele das Lojas Primo, em frente ao Cine Glória. E lá, o “couro comia”, prezado.

Reduto da malandragem, dos pedintes tortos, dos navegadores que desembarcavam no Porto de Vitória, das putas que viviam atrás deles e dos cervejeiros que faziam do local mictório no trajeto para o ponto de ônibus.

Minha jornada era das 6 às 18 horas, com intervalo de uma hora para almoço.

Meu corpo, abrigava doenças da moda, como a conjuntivite, que me seduziu umas três vezes.

Sem contar a fumaça dos canos de descarga dos carros, canalizada no beco, implacável, sobretudo, no inverno.

O “Beco do Mijo” fazia justiça ao nome. Somente lá pelas 13 horas, com o sol à pino, o odor diminuía. Isso se caprichássemos nos desinfetantes.

De vez em quando, as fechaduras da banca amanheciam entupidas de cola, pregos e palitos de fósforos. Era fatal, parceiro, só o chaveiro resolvia.

Quando jogavam produtos químicos nos bueiros do beco, saía quantidade inumerável de bichos asquerosos, igual zumbis, tontos de inseticida.

Mas, tínhamos momentos amenos. No verão, senhor do Banco do Brasil, de cabelos muito brancos, nunca esquecia de reunir a galera para ver se o ovo realmente fritaria no asfalto.

E o danado, exatamente às 12h45, fritava. Gritaria ecoava no beco.

O poster do Michael Jackson, do álbum Thriller, foi o produto que mais vendemos na banca.

Não é sacanagem não: jamais tinha visto negro despertar tanta libido em jovens brancas. Falo de 1982.

Trombadinhas, cheios de cola de sapateiro na cabeça, adoravam furtar revistas de mulheres nuas. E faziam sem menor cerimônia.

Tomei tombo terrível de piloto de competição de moto de Cariacica. Anos depois nos cruzamos em A Gazeta. Eu era o repórter e ele o entrevistado.

Pensem em situação embaraçosa. Agora multipliquem por cinco. O cara nunca mais voltou. Eu também não voltaria.

Garoto, me apaixonei por menina que trabalhava em lanchonete. Ela adorava livros de romance “água com açúcar”: Sabrina, Bruna, Carina, dentre outros.

Abriu, digamos, “linha de crédito” na banquinha e pagou religiosamente bem durante um ano. E minha paixão só aumentava.

Um dia, a gata, de nome Letícia, levou 12 livrinhos, seis novinhos em folha. Anotei, sem problemas, na caderneta.

Colocava a mão no fogo (na falta de coisa melhor) por ela.

Semana depois fui informado que a Letícia tinha sido demitida. No mesmo dia que levou os livrinhos dentro da sacola da Mesbla.

Meu coração suburbano, mais puro do que água da bica, partiu em mil pedaços.

Anos depois, curtindo o “Abre Bodes” tradicional festa de início de ano letivo do CT de Engenharia, avistei a Letícia, que trabalhava em barraquinha que comercializava cerveja.

Tive impulso de cobrá-la, mas avaliei a sua lataria cheia de músculos e desisti rapidinho da ideia.

Remoer passado, pensei, é fria.

Voltando à banquinha: família cismou de dormir na Praça Costa Pereira.

Fazia, como eu, as necessidades no prédio do INSS, ao lado do Carlos Gomes, que na ocasião funcionava.

Com fome, não pensava duas vezes: deixava o milho duas horas dentro do litro de álcool e depois jogava para os pombos.

Estes comiam e quando tentavam voar, “doidões”, mergulhavam de cabeça, no chão da praça.

A família, hóspede da Costa Pereira, não tinha trabalho nem de torcer os pescoços.



 
 
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