02/04/2020 às 07h46min - Atualizada em 02/04/2020 às 07h46min

Logo eu, guardião acidental na Praça Nilze Mendes

- Peter Falcão
Por Peter Falcão

Dia destes participei de assembleia no condomínio. Sentei-me ao lado de “cinquentão” igual a mim. 

Estávamos afinados a votar contra demissão de duas funcionárias pobres e com mais de dez anos de casa. 

 

O síndico, de 25 anos, sequer nos ouviu e nem a maioria dos moradores. Bateu o martelo amparado pelo estatuto arcaico e sua arrogância.

 

Pouco antes de começar, vale lembrar, marombado entrou no salão, nos olhando e gritando alto, que muitos estavam ali somente para “tumultuar”, intimidando, com força, muito mais pela surpresa do instantâneo fascismo.

 

O encontrei dias depois e o idiota cismou de me cumprimentar. Uma, duas, três vezes. Ficou no vácuo, o babaca. Sem resposta. E ficará eternamente até os anabólicos devorarem o seu fígado ou seus rins.

 

Fico só olhando no banco, na padaria e no supermercado a intolerância com quem tem mais de 60 anos. Parece até que eles são culpados pela fila e não este sistema escravagista.

 

Na pracinha, sentado em minha cadeirinha, em dia de calor vulcânico, cuidadora pediu para “olhar” idosa cega enquanto iria ao banheiro. Disse-lhe para seguir tranquila.

 

Solícito, a cada cinco minutos, levantava e perguntava à senhorinha, se estava tudo bem.

 

Percebi imediatamente que não precisava vigiar ninguém. Ela era invisível. Ninguém a percebia ali, no banco da praça. 

 

Crianças mimadas passavam de bicicleta a centímetros dos seus pés, madames deixavam os cachorros fazerem xixi bem ali, em um dos suportes do banco, sem menor empatia. E poucos ousavam dizer-lhe “bom dia”.

 

Os garis chegaram para limpar a praça. A senhora puxou conversa. E eu fiquei tentando ouvir, intrigado. É que cada frase que ela falava, a turma ria, com vontade. Eles se despediram e foram embora em ônibus da prefeitura.

 

A cuidadora chegou e me agradeceu. Curioso, levantei da cadeirinha e fui lá indagar o que teria dito a senhora para arrancar tantas gargalhadas.

 

Ela, então, revelou. “Falei para eles, vejam bem: Casei duas vezes, criei três filhos, trabalhei 40 anos, conheci mais de dez países e ainda preciso de um vigia para curtir alguns momentos nesta pracinha. Envelhecer não é mole”.

 

Fui embora, após rir, sem graça, prometendo nunca mais vigiá-la.


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