14/04/2020 às 17h49min - Atualizada em 14/04/2020 às 17h49min

Mais de 20 anos depois, telefonema de pai de santo ainda intriga

- Peter Falcão
Peter Falcão - Jornalista
Foto: Peter Falcão
Em um dos aniversários da morte do Ayrton Senna, a Folha de São Paulo fez matéria com quatro garotos que foram “batizados” com o nome do tricampeão mundial de Fórmula Um.

No dia seguinte, por determinação dos editores do jornal A Gazeta, fui caçar homônimos do piloto pelo Espírito Santo.

Não “logrei êxito”. Só paguei mico.

Três dias antes da final da Copa do Mundo de 1998, entre França e Brasil, o Jornal Nacional trouxe reportagem generosa, com pais e mães de santo, com previsões sobre o grande jogo.

Sentado em minha poltrona, aqui em casa, pensei: “vai sobrar para mim”. E não deu outra. Mas, desta vez, a ordem nem precisou vir de cima.

Tenho respeito pelas religiões afro-brasileiras e acredito piamente que a imensa maioria dos seus, digamos, líderes é gente boa e correta.

Mas, como ironizo, com respeito, padres e pastores, me permitam observar que em época de Copa do Mundo tem galerinha deste segmento chata para caramba. Adora forçar a barra para aparecer no jornal.

A França estava mal das pernas na Copa de 1998. Chegou à grande final contra o Brasil às duras penas, em jogos dramáticos. Nas bolsas de apostas de todo o mundo, só dava Brasil. Ronaldo Fenômeno vivia grande fase, assim como Rivaldo, Taffarel, Cafu e Roberto Carlos.

Sem lembrar do Jornal Nacional do dia anterior, estava na redação caçando matéria de comportamento. A moça da recepção telefonou e disse que pai de santo queria falar com alguém da editoria de Esportes.

Pensei imediatamente: “Finalmente, o Jornal Nacional faz efeito”. Pedi para subir, mas logo me arrependi.

O cara veio com conversa fiada que viu nos búzios que o Brasil seria campeão, vencendo por 3 a 1. Perguntei de quem seriam os gols e ele tascou o Romário no meio.

Eu, instintivamente, fechei a cara e o “revelei” que Romário havia sido cortado. Nos despedimos sem graça nenhuma. São “coisas da vida”, pensei. “E é melhor eu ficar caladinho com minha descrença”, pensei, melhor ainda e já de cabeça mais fria.

Uma hora depois, mãe de santo chegou na portaria. Pedi para subir, mais interessado. É que com dois na conversa, poderia rolar até manchete, com 25 linhas caprichadas.

A senhorinha sentou, cheia de rendas brancas no vestido, e disse que viu nas cartas 2 a 0 para o Brasil, com gols do Fenômeno.

Se fosse boa mesmo, penso hoje, preveria o “amarelão” e me daria furo mundial. Fiz matéria, com textinho cheio de graça.

O relógio apontava 12 horas e a fome dava sinais. Toca o telefone e mais um babalorixá pede para agendar entrevista na parte da tarde.

Fui seco para caramba. Tinha achado os dois primeiros canastrões demais. Disse-lhe que já havia apurado previsões.

Ele não acreditou (nem eu acreditaria). Insistiu, disse que havia tido sonho impressionante sobre a partida e que sabia, com quase precisão, o placar. “Foi um aviso”, disse do lado de lá da linha.

Afirmei, de forma mais incisiva, que não seria possível. O rapaz não gostou e gritou, com voz determinada:

“O Brasil vai perder e a culpa será de vocês da imprensa. Vai ser 3 a 0 para a França, babaca!”. Profetizou, batendo com força o telefone na minha cara.

Egocêntrico e neurótico em velocidade máxima, às vezes me pego pensando. “Posso ter ferrado o Brasil naquela final, prezado”.



 

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »

Quais são os piores motoristas de Colatina

43.6%
24.4%
32.0%
Moeda Valor
Servidor Indisponível ...