22/04/2020 às 09h15min - Atualizada em 22/04/2020 às 09h15min

No estágio em A Gazeta, pelada era às 23, diagramador finalizou doidão e casal de bem-te-vis quase me ferrou

- Peter Falcão
Foto - Peter Falcão
Jogávamos pelada na pracinha de Jardim da Penha. Os times eram compostos basicamente pela galera das redações de A Gazeta e A Tribuna. Dificilmente a bola rolava antes das 23 horas. Depois, os boêmios iam para os bares e ficavam até, quase sempre, amanhecer.

Eu dependia de carona. Como gostava também da noite, dormia quando os pássaros acordavam. O problema, parceiro, é que exatamente naquela época, casal de bem-te-vis resolveu morar perto de minha janela e fazia escândalo terrível quando eu tentava fechar os olhos.

Táxi era artigo de luxo. Quando não rolava a carona, o jeito era encarar o ônibus bacurau. Babilônia, no qual se encontravam, dentre outros, crentes, trabalhadores da construção civil, bebuns, garçons, ladrões, putas cheirando a sexo, perfume barato e a cigarro e aviões que faziam circular as drogas nos bairros de bacanas. Na situação de bebum, eu era considerado um dos mais perigosos do coletivo.

Estagiava em A Gazeta.  Queria muito ser contratado, e, para isso, precisava mostrar performance, começando por pisar na redação, pontualmente, às 12 horas, novinho em folha.

A pelada acontecia na terça-feira. Na quarta, nem aparecia na UFES onde ainda estudava e tentava encontrar namorada.

As pelejas eram animadas e, vamos combinar, folclóricas. Teve dia que jogador tagarela revelou uma das manchetes do “seu” jornal. Repórter do diário concorrente não pensou duas vezes: foi até o orelhão, localizado em frente ao posto da Polícia Militar, e ditou primeiro e segundo parágrafos, ao redator de plantão, salvando a sua pele e a de muita gente. Aula prática para estagiário que valeu semestre na Universidade.

Sem querer, em belo dia, “consegui” acertar a bola, chutada cruzada para trás, com força, na boca do Clodomir Bertoldi, sacrilégio infinito molestar um os redatores mais respeitados do jornalismo capixaba. Ele deixou a quadra com a boca sangrando.

Na redação, horas, pessimamente dormidas depois, o pedi desculpas. Mas lembramos, até hoje, em Alto Liberdade, Marilândia, tomando deliciosas cervejas, que o lance resultou em gol.

Pois bem, em uma terça, depois da pelada, fomos, em seis, para bar de Jardim da Penha. Lá pelas três da manhã restavam eu e diagramador da velha guarda.

Apareceu motoqueiro, com jaqueta de couro, enfurecido, furando, com chave de fenda, livro, de capa cinza, do Novo Testamento.

Aos berros, causava desconforto até nos moradores de rua que dormiam nos bancos da praça próxima.

Meu parceiro diagramador o olhou, impassível. Eu, estagiário, só pensava do que seria feito das pautas do dia seguinte, e do próspero emprego que me aguardava, se o doidão me ferisse com a chave de fenda.

Penso até hoje assim: se quer ser marrento, seja. Mas se garanta. O mundo está cheio de otários. Não seja mais um.

Descuidado, o maluco esbarrou na nossa mesa e virou a garrafa de Skol branquinha de tão gelada. Foi o suficiente para parceiro diagramador acertar cruzado de direita em seu queixo, o fazendo estatelar-se no chão, para perplexidade e êxtase geral.

O cara levantou-se, deixou para trás Novo Testamento e chave de fenda, subiu na moto e foi embora, manso que nem gato gordo de madame.

Pedimos a saideira. Brinquei sobre a eficiência do soco. Meu parceiro devolveu.  “Ele deu sorte que hoje estou de bom humor”.

Gargalhamos, pagamos a conta e ele me deu a tradicional carona, em seu fusca bege, até a Avenida Maruípe. Dormi até as 11, apesar dos inesgotáveis bem-te-vis.

Coincidentemente, no mesmo dia, em 6 de julho de 1989, fui contratado como repórter D1, ganhando quinhentos e dois cruzados novos e oitenta e um centavos. O segundo menor salário da redação.





 
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