28/04/2020 às 14h52min - Atualizada em 28/04/2020 às 14h52min

Com algemas penduradas em um dos pulsos, Lobão penou para entrar em A Gazeta, na época da “Vida Bandida”

O Grande Lobo estava com algemas em um dos pulsos

- Peter Falcão
Lobão: O Rock Errou

Tinha acabado de ser contratado pelo Jornal A Gazeta, após estágio de quatro meses. Ainda me adaptava à realidade de assalariado, com três pautas diárias a cumprir. Sobre Jornalismo, sabia muito pouco.

A Editoria de Esportes ficava entre as do Caderno Dois e de Polícia. O contraste era delicioso, autêntico bálsamo para curioso como eu.

Já estava indo embora quando Lobão tentava entrar na sede da Rede Gazeta. Lutava para convencer o segurança da guarita para, pelo menos, pisar na parte interna do terreno e ir até a portaria.

Alegava que iria conceder entrevista.

O rapaz telefonou assustado, com toda a razão. O Grande Lobo estava com algemas em um dos pulsos. É que depois que foi preso pela primeira vez, como ato de rebeldia, passou a andar assim.

Pelo menos durante uns 60 dias. Se bem me lembro.

Cabeludo, camisa preta, bermuda cinza escuro e tênis cano longo, parecia incomodado com tudo. Até mesmo com o ar que respirava.

Apaixonado pelo músico, voltei para a redação somente para observá-lo. Sentadinho, divulgou seu show.

Os jornalistas estavam tão “enrolados” com as diversas pautas, que nem o deram muita bola. Eu, repórter recém formado, achava tudo o máximo.

Ainda mais porque, dois anos antes, quando estudava na UFES, assisti a show do Lobão no Álvares, no qual chamou Cazuza ao palco, que fez apresentação no dia anterior, com público mínimo (que também conferi).

Reza a lenda que veteranos do curso de Comunicação entrevistaram o Lobão no camarim e cheiraram, às escondidas, as roupas íntimas da sua prima, namorada na época, a estonteante Daniele Daumerie (que morreu em 2014, aos 46 anos, de AVC).

Pois bem, voltando à redação. Lobão foi embora. Na ocasião, vivia no epicentro das muitas prisões que ocorreram de 1986 a 1992 por porte de drogas, mas também, convenhamos, por certa soberba.

Tantos anos depois, a impressão que fica é que Lobão e boa parte dos roqueiros das décadas de 1980 e 1990 foram coniventes com a máquina da indústria cultural que tritura, com força, até a alma.

Se deixaram ser usados e se ferraram. E se expuseram aos exageros e, evidentemente, às mentes tresloucadas.

Lembro de gente da minha sala na UFES alegando que Lobão vivia preso em celas imundas e cheia de ratos para “se promover”.

Percebo também que boa parte dos artistas, celebridades e atletas achava (assim como ocorre até hoje) que fama e dinheiro são passaportes que os autorizam a não ter limites. Bajulados, pensam que podem tudo.

E, não sejamos hipócritas, com substâncias químicas e álcool à disposição observam, impassíveis, seus barcos navegarem sem rumos e a favor de qualquer vento.

Mas, o fato é que os discos do Lobão eram fantásticos. Repletos de porradas secas nas letras contra o sistema, mas também de amor desesperado. Falava abissalmente ao coração dos jovens que precisavam se expressar.

Fico triste que atualmente parte das pessoas não conheça a obra de Lobão. Somente o personagem. E também desconfio que Lobão foi contestador quando muitos foram, durante a transição da ditadura para a democracia plena.

E que em sua essência, Lobão sempre foi um “bom burguês”, que se embaraçou na “necessidade” de adaptar o próprio discurso.

Amava Lobão em sua fase de “Vida Bandida”. Hoje em dia, ando o flertando de longe, acreditando em dias melhores neste nosso amor já tão combalido.

Então, preciso te falar: “Quando retomar sua pegada artística, Velho Lobo, “Me Chama”.

Cuide-se e acredite: “Nem sempre se vê, lágrimas no escuro”.

Gostaria de te abraçar e de te falar no ouvido: “Não quero mais Revanche”.

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